16 de abril de 2011

Ai ai, este meu sertão de minhas andanças


(agradeço quem informar autoria da imagem)

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Sou uma apaixonada por tudo que se refere a recortes, imagens e toda nostalgia que cerca o campo da memória. Não à toa meus trabalhos de pesquisa literária têm foco nas memórias que permeiam o texto ficcional. Estou sempre às voltas com teorias sobre a memória. Mas neste e noutros domingos(de fevereiro do corrente ano) abandonei Halbwachs, Huyssen, Nora, Bosi, Polak e tantos outros para ser eu mesma o emaranhado de imagens, de lembranças, de lugares, de sentimentos e de saudades memorialísticas, totalmente desprovida das redes teóricas.  
Num primeiro domingo, a família se reúne num sítio de um dos meus irmãos, “2”. Ao chegar, nos deparamos com pouco estômago para a comilança que estava disponível: umbu, milho assado, coco verde, melancia, torresmo, laranja, carnes na churrasqueira e um almoço que poderia alimentar um batalhão. Quando a alegria provocada por uma cerveja se instaura, chega, então, a caravana de lembranças e piadas vivenciadas por meus irmãos na infância e adolescência.
 Os causos giram em torno das peripécias de crianças, das histórias de pescaria, da (com)vivência dos “meninos” que hoje se aproximam de meio século (risos). Eu que ainda não sonhava em nascer fico ali, só ouvindo, invejosa de não ser parte daqueles momentos. Eu que nasci quando todos já buscavam beber na fonte do juízo. Mas não “me” arrependo de ter nascido depois, e além do mais, como faço em minhas leituras, viajo naqueles causos, adentro as histórias e tomo parte nelas, me tornando uma personagem-observadora-onipresente.
“4”, de quem ninguém se lembra de histórias para contar, pois segundo ele, preferia observar do que aprontar, busca em sua “memória de elefante”, fatos do “arco da velha”. Em seu monopólio memorialístico todos caem no riso. Conta ele, que certa vez em uma pescaria, entraram numa área onde os peixes fervilhavam, era um tanque particular. Muito animado, o grupo, no qual se achava meu pai e dois irmãos além de outros homens, entrou na propriedade. Entusiasmados armavam redes, riam, arrumavam iscas nos anzóis quando de repente se aproxima um homem montado em um cavalo, o qual  chamou meu pai dizendo: “Ei velhinho da cabaça branca. Vem cá!” Nisso, os outros se entreolharam e guardaram o riso no canto da boca. Meu pai todo altivo dentro do seu corpo franzino, se aproxima do estranho  que continua inquirindo: “Quem deu ordem para vocês pescarem aqui?”, meu pai responde: “ Foi o Seu Felipe. E quem é o senhor?”. O homem sem pestanejar respondeu: “Sou o Seu Felipe! Peguem suas tralhas e vão embora logo, antes que eu chame a polícia”. O riso caiu solto e os pescadores tiveram que desarmar acampamento.
 As histórias do meu pai dariam um livro. Sem contar as dos meninos, mas as deixo para outra oportunidade. Foram tantas histórias neste dia que todos ficaram com a barriga dolorida de tanto sorrir.
No domingo seguinte, fomos visitar a tia Guiomar, mais conhecida como tia Loiça – listo porque quando era pequena, se parecia com uma boneca de louça –  e um de seus filhos que chegara de São Paulo. Meu pai sai pela propriedade rural, também se espalham meus irmãos e sobrinhos pequenos. Logo chegam com cana, umbu, coco... No quintal correm atrás dos frangos para fazer uma galinhada. Na cozinha um caldeirão de leite se prepara para transformar-se em doce. As mulheres não param. Cada uma se responsabiliza por um prato. Acho que Cora Coralina iria gostar de fazer ali, um dos seus quitutes.
A casa muito simples bem como seus moradores. Ali o tempo se encarregou de parar. E mais uma vez as memórias aparecem,  mas desta vez, apenas as minhas. Quando pequena morávamos em casa geminada com esta tia. Mas foi seu filho recém chegado responsável por minha lembranças. Éramos muito amigos, diferença de cinco anos, o bastante para fazê-lo capaz de me carregar nas costas pela feira livre nos sábados, buscando novidades (doces e bonecas) para que meus pais pudessem comprar. Também foi ele o dentista sem intenção que arrancou um dos meus dentes quando na tentativa de me retirar do seu pescoço, perdeu o controle sobre o meu corpo e não conseguiu impedir que eu caísse de boca no chão, perdendo o meu primeiro dente. Vale lembrar que este não seria entregue a fada do dente, mas jogado em cima do telhado com o pedido de um novo dente e rezando para que lagartixas não comessem o pequeno dente de leite, ou segundo a lenda, não nasceria mais. Depois do almoço todos se sentam na sala para uns dedos de prosa e outras histórias.
Porém foi no domingo seguinte que abandonei o presente e fui trilhar como Rosa, meu sertão. Sai da minha cidade e fomos visitar uma tia numa cidade vizinha, na qual morei, por um tempo na zona rural. Na cidade de Igaporã muitas coisas mudaram, porém ainda se mantém os velhos casarões históricos. Ao iniciar a viagem para a zona rural deste município fui retrocedendo no tempo. A estrada, algumas árvores, a casa da tia Raquel, ou melhor tia Quezinha, que de mudança apenas aquelas sofridas pela ação do tempo. Meus primos, casados, com filhos, divorciados, o mesmo jeito de falar, a mesma dureza de vida.
Uma brisa fresca nos acolhe assim que descemos do carro, bem como o frescor da saudade. Em frente à casa, a lagoa Tamanduá  já não goza mais da abundância de outrora. Quando pequena, fora ali que por recomendação médica me levavam para fazer natação, se bem que minha hidrofobia pouco me deixava fazer os exercícios. Cheguei estremecer ante a lembrança do medo. O cheiro do café quentinho trouxe-me de volta a realidade.
Este dia trouxe consigo uma grande tristeza, pois minha tia perdeu a visão de um olho. Sentados na varanda da casa, todos tinham algo a recordar. A tarde já estava findando quando entramos no carro para continuar dando asas à memória. Voltamos por outra estrada, a qual nos levava para nossa antiga casa. Mas antes: “freia! freia!”, todos gritaram. Queriam tirar manga, nas velhas mangueiras plantadas a mais de meio século pelo meu avô paterno. Na boleia do caminhão, minha mãe, meu irmão “2”, eu e as recordações...Da primeira casa dos meus pais, resta uma mangueira e um mourão, mas nesta nunca morei. Subimos mais um pouco e as propriedades da família iam se subdividindo entre as antigas casas de meus tios... até que chegou minha antiga casa, e um filme se fez presente, me teletransportei no tempo e pude voltar com lágrimas à minha infância, os passos que lá ficaram...
Continuamos a viagem e outras lembranças, mas prefiro tê-las só para mim neste momento, em outra oportunidade partilho. Ah, outra vez os gritos de “pára o carro”, desta vez para retirar umbu. Parece que meus irmãos voltavam aos tempos de menino. Em cima do caminhão muita algazarra, riso frouxo, lampejos do vivido e experimentado naquele lugar que já fora reduto de uma única família, dos quais, de dez irmãos, apenas dois permanecem.
Aproveitamos a viagem para visitar outro tio que se encontra doente (Mal de Parkinson), mas este na cidade. Encontramos meu tio e tia e alguns primos. Ali até parece que nos esperavam, já que nos deliciamos com um lanche revigorador que estava à mesa, do qual fiquei com melancia, deixei o café e os bolos para outra oportunidade.
 Na volta, o comentário do quanto as coisas haviam mudado, de como a chuva escassa se encarregava de modificar o lugar, as pessoas, de diminuir a oportunidade de permanência em certos paraísos. Lugares que em minha infância jorravam água, atoleiros, pequenos córregos, grandes plantações, tanques, cacimbas, lagoas...agora o que ainda existe se mostra numa escala mínima, uma coisa triste de se ver. E mesmo assim, perdendo tudo que plantam, estes sertanejos se fazem fortes, sorriem, arregaçam as mangas e enfrentam com coragem as adversidades que o clima lhes impõe. Este é o nosso retrato.
                                              

Gaiola da Saudade

Composição: Jam Da Silva / Maciel Salú
Vivo andando no mundo
Na gaiola da saudade
Igualmente um passarinho
Voando solto nos ares
Querendo água e comida
Pra matar minha vontade
Deixo minha terra chorando
Pra morar noutra cidade

Para que sentir a dor
Para que se tê-la
O sol queima, racha a terra
E a lua clareia

Tempo bom foi no passado
Na época do meu avô
O homem tá destruindo
O que a natureza criou
Planta semente na terra
Espera a chuva e não cai
Tão aborrecendo a Cristo
Por causa de tudo isso
Tempo bom ninguém vê mais

Na estação pego um trem
Sigo firme na estrada
A bagagem é minha roupa
E a rabeca afinada
Vem a noite e não dá sono
Na madrugada cochilo
Vejo a chegada do dia
Não sei
Qual o é o meu destino




4 comentários:

Lindy Cardoso disse...

Ah que viagem gostosa!
Nessas rememorações consigo entender o porque da sua dedicação à memória.
Assim como você sou, demasiadamente, nostálgica, apesar de, não compartilhar lembranças tão gostosas como a sua.
Ao fim da andança pelo sertão, sentei extasiada pela comilança, e respirando fundo consegui escrever este comentário.

Bjs

Marco Haurélio disse...

Paula, você também me fez viajar. Recordei os pés de manga da Vargem Grande e uma visita à casa de Tia Quezinha, no Tamanduá, há vinte e tantos anos.

Sem contar as muitas histórias de mal-assombro da casa da vargem Grande.

Marco Haurélio disse...

Paula, você também me fez viajar. Recordei os pés de manga da Vargem Grande e uma visita à casa de Tia Quezinha, no Tamanduá, há vinte e tantos anos.

Sem contar as muitas histórias de mal-assombro da casa da vargem Grande.

Paula: pesponteando disse...

Li, é sempre tão bom viajar via memória. mas nem ouse dizer q vc não faz essas viagens...Está sempre me contando coisas gostosas e repletas de fatos históricos, os quais adoro.

Marco, kkk Nem me fale das asombraçoes. Ainda tenho lembranças vagas desse tempo. Me lembro de uma noite lá na casa de tio Lô, ouve ceerto barulho rodando a casa, como m couro velho sendo arrastado. Era terrível! Estudei comuma das suas tias, acho q foi Dona ou Nalva, e mesmo durante o dia o medo me rondava. Era defunto q aparecia entregando tesouros eecondidos. Me visitaram em sonhos duas vezes, mas quem disse q fui buscar o tal tesouro...kkkk...Tenho muitas lembranças do pouco tempo q passei por lá...

bjs