sexta-feira, 27 de novembro de 2009

MEMÓRIAS DO CATIVEIRO: VIVÊNCIAS E RESISTÊNCIAS DA MULHER NEGRA


Por:
Paula Ivony Laranjeira de Souza

A partir da segunda metade do século XX começam a surgir vários movimentos
negros como: Gens, Quilombhoje, Negrícia, que possibilitaram uma maior discussão sobre o negro e conseqüentemente maior desenvolvimento da literatura afro, seja através dos Cadernos Negros, de algumas editoras ou através de publicações independentes. Mas apesar do reconhecimento cada vez maior, dentro e fora do país, de autores que trabalham com temáticas negras, ainda há um longo caminho até o reconhecimento da excelência da literatura afro-brasileira, que poderia ser citada apenas como literatura, pois o termo literatura afro gera uma espécie de segregação “sob a capa de aparente valorização” (Domício Proença Filho apud DUARTE, 2002, P. 49), no entanto, Miriam Alves atesta, “o que nós poetas negros vivemos hoje não é um gueto. Gueto é quando se é segregado pelos outros. Hoje nós vivemos o quilombo; a revolta que nós mesmos provocamos (...)” (apud LOLBO, 1993, p. 162).


Na literatura, grande espaço tem sido reservado a discussões e debates teóricos sobre a
temática negra. O que se observa é que tem-se ao longo do tempo uma tradição literária
fortemente marcada por uma escrita masculina e branca, que reservava a mulher apenas o papel de coadjuvante, papéis estes, estereotipados, e cujas obras produzidas só poderiam ser publicadas mediante o uso de pseudônimos. Com exceção, destaca-se Maria Firmina dos Reis, no século XIX, com o lançamento de “Úrsula”, o primeiro romance abolicionista. E apesar da autora viver num contexto de extrema segregação racial e social, apresenta em Úrsula uma visão positiva do negro, sem os preconceitos raciais e os estereótipos comuns em seu tempo. Além disso, ela denuncia o cerceamento e as agressões de que a mulher brasileira era vítima; e no século XX, mais precisamente na década de 60, Carolina Maria de Jesus, com o sucesso internacional de Quarto de despejo, no qual relata em forma de diário a própria história – de uma mulher pobre, negra, favelada, com pouco estudo, mas que consegue em uma semana vender dez mil exemplares do seu livro.


Já na Contemporaneidade destaca-se Conceição Evaristo, que em sua infância foi
moradora da favela, e na juventude trabalhava para poder estudar e realizar o sonho do
magistério. Devido à paixão pela literatura, alimentada na infância pelas histórias que a mãe contava, fez o curso de Letras. Em 1980 ela conhece o Grupo Quilombhoje e a série Cadernos Negros, nos quais passa a publicar poesias e contos. Sua escrita poética fala do cotidiano dos excluídos, misturando violência e sentimento, realismo cru e ternura, revelando assim, o compromisso e a identificação da intelectual afro-descendente com os irmãos colocados à margem do desenvolvimento (DUARTE, 2006). No que se refere, a narrativas longas, lança Ponciá Vicêncio, e nos fará junto à personagem que dá nome ao romance, percorre através da memória, a luta de uma mulher pela liberdade bem como todo o processo diaspórico pelo qual
o negro trilhou desde a escravidão. É interessante observar que a literatura negra brasileira contemporânea, de acordo com Luiza Lobo (1993, p. 193), tem como marca construir o passado através da memória, mas para isso faz uma separação entre o plano real e o ficcional. O primeiro se divide entre o imaginário e o simbólico, ao passo que no plano ficcional há uma tendência para o biografismo mimético. Sem contar a existência de obras, que se colocam no plano real histórico, seria este o caso de “Ponciá Vicêncio”, que através de um narrador onisciente, traz uma narrativa em 3ª pessoa, com um enredo não-linear, trabalhando um contexto histórico-social onde realidade e ficção se misturam apresentando uma mulher corajosa, mas que padece os infortúnios da escravidão, os quais recebe em herança da cor que possui.


A partir da década de 80, no século passado, se dá o “boom da memória”, a
humanidade começa a valorizar seu passado, seus heróis, suas construções arquitetônicas. Livros e filmes foram lançados, no entanto, os africanos e afro-descendentes, especialmente, as mulheres negras ficam mais uma vez à margem, não se lançam filmes apresentando o heroísmo dos negros. Mas ao partilhar as lembranças individuais da sua personagem, a autora exibe a memória coletiva de um povo. Usando uma linguagem simples, personagens envolventes vão aos poucos habitando o leitor, deixando marcas, fazendo-o reconhecer lugares, situações e momentos da vida, como memórias necessárias para construir segundo Huyssem (2000), futuros locais diferenciadas num mundo global.

Nesse sentido observe:

“Bom que ela se fizesse reveladora, se fizesse herdeira de uma história tão sofrida, porque enquanto o sofrimento estivesse vivo na memória de todos, quem sabe não procurariam, nem que fosse pela força do desejo, a criação de um outro destino (...) A vida era um tempo misturado do antes-agora-depoise-do-depois-ainda. A vida era a mistura de todos e de tudo. Dos que foram, dos que estavam sendo e dos que viriam a ser.” (EVARISTO, 2003, p. 130-131)


Ponciá morava em uma localidade junto com ex-escravos e seus descendentes, que foram contemplados pela lei do Sexagenário, Lei do Ventre livre e por fim pela Lei Áurea, mas que continuavam “escravos”, “efeitos de uma liberdade assinada por uma princesa, fada-madrinha, que do antigo chicote fez uma varinha de condão. Todos, ainda, sob o jugo de um poder que, como Deus, se fazia eterno”(p. 48). O pai e o irmão trabalhavam para o exdono de seu avô, e ela junto com a mãe fabricavam objetos de barro, que eram vendidos a preços irrisórios. Era uma vida simples, sem grandes perspectivas, fato que causava inquietação em Ponciá. E é por isso, que ela se opondo ao destino que lhe era imposto, após a morte do pai, larga a família e vai para a cidade grande tentar uma vida “melhor”, e contrariando as expectativas não se torna prostituta. Na cidade trabalha como doméstica, compra a sonhada casa com o objetivo de trazer a mãe e o irmão para ficarem a seu lado. Mas ao voltar a seu povoado não os encontra mais, isto porque seu irmão também foi para a cidade na tentativa de encontrá-la. Sem saber do paradeiro da irmã, Luandi Vicêncio, um rapaz analfabeto, negro, se torna soldado. Já a mãe de Ponciá, passa a perambular pelos arredores das comunidades circunvizinhas buscando encontrar os filhos. E por conta de uma inquietação interior, a personagem principal – Ponciá -, não consegue se sentir feliz nem livre. Dessa forma, Conceição Evaristo apresenta em Ponciá Vicêncio vários heróis do cotidiano.


A autora traz para o leitor uma mulher negra, que até a adolescência tem sonhos e desejos. Mas, também, apresenta as mazelas de um país escravocrata, que após dar a “liberdade” ao povo negro, o torna cativo:


“Há tempos e tempos, quando os negros ganharam aquelas terras, pensaram que estivessem ganhando a verdadeira alforria. Engano. Em muito pouca coisa a situação de antes diferia da do momento. As terras tinham sido ofertas dos antigos donos, que alegavam ser presente de libertação. E, como tal, podiam ficar por ali, levantar moradia e plantar seus sustentos. Uma condição havia, entretanto, a de que continuassem todos a trabalhar nas terras do Coronel Vicêncio (...)”. (EVARISTO, 2003, p. 48)


O trecho acima é constatado por Hebe M. Mattos (1998, p. 284-287), em seus estudos sobre a visão de liberdade no sudeste do Brasil do século XIX, onde o desejo de ex-senhores era que o liberto ficasse sobre a tutela do Estado e esse os forçasse a trabalhar de acordo as exigências dos antigos donos. Ela ainda acrescenta:


“Nos últimos meses da monarquia e ainda na primeira década republicana, os
ex-senhores continuavam a tentar acionar sua ascendência sobre os homens nascidos livres, seus dependentes, bem como sua influência sobre as autoridades locais, para forçar os libertos a tomar contrato de trabalho” (MATTOS, 1998, p. 284)


E é justamente essa liberdade prometida que a personagem central não sentia. É
possível destacar na narrativa seu inconformismo num espaço rural, marcado pela subserviência e despersonalização, e as suas frustrações num espaço urbano, lugar de sonhos e aspirações. Por isso, experimentava um sentimento indizível, silêncios, emoções que deveriam ser ditos, mas que ela prefere não dizer, já que seus vazios não podem ser preenchidos com qualquer substância, o que ela precisava era sair do cárcere social, se sentir sujeito, já que até então vivia asujeitada pela condição em que nasceu. “(...) ela era escrava também. Escrava de uma condição de vida que se repetia. Escrava do desespero, da falta de esperança, da impossibilidade de travar novas batalhas, de organizar novos quilombos, de inventar outra nova vida.” (EVARISTO, 2003, p.82).


Levando em conta o conceito de culturas nacionais de que fala Stuart Hall (2000, p.
47-65), é possível entender porque “Ponciá” não consegue sentir-se em si mesma. As culturas nacionais ao serem construídas devem causar na “nação” um sentimento de pertencimento, levando o sujeito a identificar-se com os mitos de origem, cenários, rituais nacionais, perdas, triunfos, etc. A personagem central não consegue identificar-se nem com o próprio nome, - Vicêncio – que indica seu pertencimento ao Coronel Vicêncio. Muito menos sente “(...) a posse em comum de um rico legado de memórias..., o desejo de viver em conjunto e a vontade de perpetuar, de uma forma indivisiva a herança que recebeu”(RENAN, 1990, p. 19 apud Hall, 2000, P. 58). O legado memorialístico dessa personagem vem da África, já que o do Brasil é tortuoso, o que a leva, a não se sentir parte da cultura nacional, além disso, a herança que recebeu de seus pais é deveras dolorosa para querer perpetuar.


Assim, no decorrer da narrativa o leitor vai conhecendo através da memória dessa mulher - a voz menina que cantava suas lembranças - o processo de diáspora que conduz o da senzala à favela: o período da escravidão: “Era pajem de Sinhô moço(...)Era o cavalo onde o mocinho galopava(...)o coronelzinho exigiu que ele abrisse a boca, pois queria mijar dentro. O pajem abriu.”(p. 14); o não cumprimento das leis e a alforria encenada “Se eram livres, por que continuavam ali?” (p.14); o desejo de liberdade ”não queria ficar ali repetindo a história dos seus”(p. 38); o encarceramento da pobreza; ao passo que apresenta também a cultura, com suas lendas “menina que passasse por baixo do arco-íris virava menino”(p. 9); a valorização dos mais velhos como fonte de saberes; as experiências, vivencias...


Neste texto, os leitores são levados a reencontrarem o fio condutor de sua própria
história, das raízes tão almejadas desde o Romantismo:


(...) descobrirmos quem realmente somos, a verdade de nossa experiência.
Ela é uma arena profundamente mítica. É um teatro de desejos populares (...)
de fantasias populares. É onde descobrimos e brincamos com as identificações de nós mesmos, onde somos imaginados e representados (...) para nós mesmos pela primeira vez. (HALL, 2003, p. 348)


Assim sendo, de acordo segue a narrativa, o leitor vai percebendo que carrega dentro de si essa negritude, ou essa africanidade, sentimento que é experimentado graças ao descortinar da memória da personagem principal, aonde a autora vai apresentando ao leitor seus/nossos ancestrais, demonstrando sua humanidade, personalidades, desejos, ímpetos, valores, suas contradições interiores e seu olhar sobre si e sobre o outro, possibilidades estas, de que muitos foram privados de experimentar devido o processo de coisificação a que o negro foi submetido, pois como salienta Ianni (1988, p. 209), a cultura e a ideologia dominante escondem muito, esconde as histórias desumanas, açucara a escravidão, prega a democracia racial, etc.


Na cidade, a personagem em destaque se depara com muitas dificuldades, casou-se
com um homem sem sonhos, com o qual passa a dividir a pobreza. Morava na favela, perdeu os filhos que teve, mal tinha o que comer, algumas vezes chegara a apanhar do marido, aumentando assim, seu vazio existencial. Aos poucos, essa mulher foi silenciando seus sonhos e alegrias. Com isso, a autora descreve de forma não linear muitas das dificuldades que a mulher negra passou na pós-abolição, bem como a busca incessante pela identidade. Identidade esta, que a literatura e a expressão afro-descendente muito tem ajudado a ser encontrada. Visto que a reconstrução dessa memória ancestral ajuda o leitor, a alimentar o orgulho étnico e a própria identidade (DUARTE, 2002, p. 52).


Conceição Evaristo traz uma narrativa bem feminina, onde segundo ela,


“(...)o corpo-mulher-negra deixa de ser o corpo do “outro” como objeto a ser descrito, para se impor como sujeito-mulher-negra que se descreve, a partir de uma subjetividade própria experimentada como mulher negra na sociedade brasileira. Pode-se dizer que o fazer literário das mulheres negras, para além de um sentido estético, busca semantizar outro movimento, ou melhor, se inscreve no movimento a que abriga todas as nossas lutas. Toma-se o lugar da escrita, como direito, assim como se toma o lugar da vida.”(EVARISTO, 2005, p. 54)


em seu texto a mulher tem o papel de força motriz, é ela quem toma as decisões “Era tão bom ser mulher! Um dia também ela teria um homem que mesmo brigando haveria de fazer tudo que ela quisesse”(p. 24), é quem tem iniciativa, e, em quem todos os sonhos são depositados “a menina um dia sairia da roça e iria para a cidade. Então carecia de aprender a ler”(p.25). Como bem enfatiza Duarte:


“(...)o texto de Ponciá Vicêncio destaca-se (...) pelo território feminino de onde emana um olhar outro e uma discursividade específica. É desse lugar marcado, sim, pela etnicidade que provém a voz e as vozes-ecos das correntes arrastadas. Vê-se que no romance fala um sujeito étnico, com as marcas da exclusão inscritas na pele, a percorrer nosso passado em contraponto com a história dos vencedores e seus mitos de cordialidade e democracia racial. Mas, também, fala um sujeito gendrado, tocado pela condição de ser mulher e negra num país que faz dela vítima de olhares e ofensas nascidas do preconceito. Esse ser construído pelas relações de gênero se inscreve de forma indelével no romance de Conceição Evaristo, que, sem descartar a necessidade histórica do testemunho, supera-o para torná-lo perene na ficção.” (DUARTE, 2006)


Através da memória do narrador, é possível conhecer muito mais que uma simples narrativa ficcional, é possível perceber o caminhar de um povo em busca de uma identidade usurpada, povo que como no exemplo bíblico, foi retirado da antiga terra para ser escravo e agora busca um lugar seu. Lugar difícil de ser encontrado neste país que prega a democracia racial, e que, ao mesmo tempo, relega a inferioridade os afro-descendentes. Diante da fragmentação a que foram expostos, esses homens e mulheres vão buscando nas histórias que ouvem dos mais velhos o elo perdido com a mãe África, ao poucos retiram da oralidade sua cultura, religiosidade, seu passado real, não este de ex-escravos. Esta costura de retalhos feita por Conceição Evaristo, gerou “Ponciá Vicêncio”, uma história “despojada de liberdade, mas não de consciência”(DUARTE, 2006), que nos leva a salvar do esquecimento e/ou cárcere provocado por este mundo imediatista, a essência de que somos feitos.



Souza. Paula Ivony Laranjeira. MEMÓRIAS DO CATIVEIRO: VIVÊNCIAS E RESISTÊNCIAS DA MULHER NEGRA. Disponível em: http://www.uesb.br/anpuhba/anais_eletronicos/paula_laranjeira.pdf Acessado em: 27/11/09

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Só na vontade...


Às vezes tenho vontade de ter em mim o riso solto, cheio de escândalo e verdade, com gosto de ninguém é mais feliz do que eu;
Ás vezes tenho vontade da lágrima caindo no rosto, expressão da dor sentida, cheia de pesar e tristeza, com gosto de eu preciso de um ombro;
À vezes tenho vontade de ter asas imensas, que dê voos rasantes e que plaine sobre sobre as colinas, cheias de liberdade, com gosto de não podem me pegar;
Às vezes tenho vontade de dar passos, deixar pegadas e me levar para longe, cheios de tudo posso, com gosto de ir e vir;
Às vezes tenho vontade de ser palavra, que tudo relata, que cala e se faz secreta, cheia de possibilidades, com gosto de eternidade;
Às vezes tenho vontade de ser silêncio, que nada diz, cheio de tantas coisas, com gosto de mistério insondável;
Às vezes tenho vontade de ser verdade...
Às vezes tenho vontade de ser mentira...
Às vezes tenho vontade de ser milagre!

Paula Ivony Laranjeira

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Clara, Claridade, Clarice Lispector: cheia de luz literária

Clarice Lispector, o sol escuro do Brasil

16/11/2009

The New York Times
Tomás Eloy Martinez

Clarice Lispector, em foto de 1976

Há pouco mais de meio século, a força de transformação da literatura da América Latina assombrava os países centrais, que haviam alcançado a modernidade graças ao desenvolvimento de suas indústrias, suas descobertas tecnológicas, suas redes de comunicação, seus trens e aviões. Mas sua linguagem e sua capacidade de narrar a sociedade estavam apergaminhadas, cansadas, e supriam a falta de ideias e sangue novos com jogos teóricos que não levavam a lugar nenhum. Na América Latina, o afã de criar esse mundo novo expresso pela revolução cubana parece ter se concentrado na literatura.

Enquanto os países do Rio da Prata, México e Colômbia respiravam a plenos pulmões os novos ares, o gigante Brasil mantinha-se impermeável a tudo o que não vinha de si mesmo. O Brasil mudava de pele, mas se alimentava de sua própria música e de sua própria herança literária. Certa vez perguntaram a João Gilberto por que ele fazia tão poucos shows no estrangeiro, onde sua música tinha um sucesso clamoroso.

"Para quê?", respondeu. "No Brasil meu público é tão numeroso como no resto do mundo e, além disso, ele me escuta com mais felicidade".

Em meados do século 20, o grande nome da literatura brasileira continuava sendo o de Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908), que escreveu uma sucessão de obras mestras mediante o simples recurso de observar atentamente a paisagem interior dos pensamentos e dos sentimentos para contá-los de uma maneira incomum, inesperada. Um de seus maiores herdeiros é João Guimarães Rosa, que impressiona mais do que tudo por seu virtuosismo verbal e pelo ouvido finíssimo com que capta a música das vozes do sertão, no nordeste profundo de seu gigantesco país.

Entretanto, a única filha direta e legítima de Machado de Assis é Clarice Lispector, cuja obra misteriosa começa a difundir-se nos Estados Unidos com tanto ímpeto quanto a de Roberto Bolaño. O chileno foi consagrado pela revista The New Yorker, e o influente The New York Review of Books rendeu tributo a Lispector com um ensaio extenso de Lorrie Moore, a jovem deusa do minimalismo.

Moore adverte que a fama magnética de Lispector se deve em parte aos estudos sobre sua obra reunidos por Hélène Cixous, a quem as universidades francesas devem o apogeu dos estudos sobre a mulher. Na França, recorda Cixous, a extraordinária abstração da prosa de Lispector fez com que a vissem como uma filósofa. Quando ela assistiu a um encontro de teóricos sobre sua obra, abandonou a sala na metade da homenagem, dizendo que não entendia uma só palavra do jargão.

Uma das primeiras vezes que se ouviu falar de Lispector em Buenos Aires foi no final dos anos 70, quando circulou a lenda de que ela havia se queimado viva em sua casa no Rio de Janeiro.

Em 1969 o mítico editor argentino Paco Porrúa havia publicado na editora Sudamericana alguns de seus livros: os romances "A Maçã no Escuro", "A Paixão Segundo G.H." e "Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres", assim como os admiráveis contos de "Laços de Família". Lispector rompia com todas as convenções da arte de narrar e arrancava de cada palavra um tremor secreto, enigmático. Suas revelações eram como as de um teólogo oriental participando de uma dança ritual africana.

Quando a lemos, deslumbrados, na revista "Primera Plana", pensamos que era imperativo viajar para o Rio de Janeiro para decifrar seus segredos. Sara Porrúa, que na época era mulher de Paco, quis ser a primeira nessa busca.

As primeiras notícias que enviou dissipavam a fábula de que Lispector fora queimada viva. Sua cama havia se incendiado acidentalmente quando dormiu com um cigarro aceso. Mas a haviam resgatado a tempo. Sua estranha beleza tártara (os olhos amendoados e rasgados, as maçãs do rosto salientes, a constante expressão de angústia de seu rosto) havia desaparecido quando queimou o lado direito do corpo, imobilizando-lhe o braço. Nada, entretanto, apagava sua paixão por narrar o mundo.

Sara a encontrou mais algumas vezes e, com sua imagem intensa, inesquecível, perdeu-se nas selvas da Guatemala e transformou-se em personagem de Cortázar.

Dar uma ideia de sua imaginação só é possível através de algumas citações. O começo do romance "Uma Aprendizagem..." (1969) é uma frase que vem do nada. A porta de entrada desse livro é uma vírgula: ", estando tão ocupada, viera das compras de casa que a empregada fizera às pressas porque cada vez mais matava o serviço, embora só viesse para deixar almoço e jantar prontos...".

Antes desse comentário doméstico e trivial, Lispector surpreendeu o leitor com uma advertência que é também uma afirmação de seu ser:

"Este livro se pediu uma liberdade maior que tive medo de dar. Ele está muito acima de mim. Humildemente tentei escrevê-lo. Eu sou mais forte que eu. C.L."

E no final de "Água Viva", ergue a voz: "Não vou morrer, ouviu, Deus? Não tenho coragem, ouviu? Não me mate, ouviu? Porque é uma infâmia nascer para morrer não se sabe quando nem onde. Vou ficar muito alegre, ouviu? Como resposta, como insulto".

Seu desmedido desafio à morte impregna muitas das crônicas reunidas em "Revelación del Mundo", que incluem todas as que escreveu para o Jornal do Brasil entre 1967 e 1973. Outras, inéditas, serão publicadas no ano que vem em espanhol sob o título de "Descubrimientos".

Lispector continua sendo um enigma velado que assombra em cada frase, em cada desvio da vida. Morreu aos 57 anos de um câncer nos ovários, depois de ter passado os últimos anos fechada na solidão de sua casa do Leme, perto das areias de Copacabana.

Seu autorretrato cabe em uma frase: "Olhar-se ao espelho e dizer-se deslumbrada: Como sou misteriosa".

* Tomás Eloy Martínez: Analista político e escritor, o argentino Tomás Eloy Martínez é autor de livros como "Vôo da Rainha" e "O Cantor de Tango".


Tradução: Eloise De Vylder

Disponível em: http://noticias.uol.com.br/blogs-colunas/colunas-do-new-york-times/tomaz-eloy-martinez/2009/11/16/ult7201u13.jhtm acessado em 16/11/09

É por este é um blog que se valer da literatura para existir que resolvi partilhar com vocês o texto acima, matéria de um jornal internacional. Aguardo comentários...bjs

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Vida de espera

Valmir (de vermelho e livro no colo) durante a premiação

Por: Valmir Henrique de Araújo


"Eu prometi nada dizer dessa experiência. Manteria segredo.

Jurei obedecer ao nosso pacto. Tal o início no Éden. Mas vazou.

Desde pequeno já lhe admirava. Não poderia ousar, senão olhos pidões, a boca encharcada de saliva.

Cresci apressado no desejo de chegar até você. Maldizia os rapazes que lhe rodeavam até conseguir o que queriam.

Acompanhava as tentativas deles. Via como organizavam filas. Apostavam que seria o vencedor. Achava intolerável aquilo.

Eles faziam comércio. Como poderia eu, então, lhe imputar culpa? Eu lhe achava a mais linda das mais lindas. Para mim, tudo que eles tramavam era indigno. Era você sozinha para servir a todos.

Com as varas deles nas mãos enfiavam em você. Via como suas lágrimas escorriam. Os urros deles quando você cedia. E quando você resistia? Eles atiravam pedras em reiteação aos julgamentos bíblicos.

As tentativas de trepadas deles em você eu as acompanhei todas. Caiam, eu via. Mas eu não. Não cairia. Tinha o exemplo deles. Saberia a estratégia, o caminho a seguir. Teria uma vida inteira para lhe conquistar. Não tinha pressa em lhe provar. O seu sabor eu já o sentia em seu aroma endereçados para mim em vento leve.

A vida pareceu uma eternidade.

Crescer é uma câmara lenta que a gente tem de tolerar.

Finalmente cresci.

Naquele dia o seu cheiro estivera mais forte. Coisa de estação. A sua e a minha. Você madura. Eu adolescente. Você viçosa. Eu hormônios em erupção. Ânsia nunca dantes sentida, tamanha a força do desejo.

Eu era um animal em fúria, cego. Guiado pelas acesas narinas, fui.

As minhas presas brilhantes, garras afiadas.

Eu estava bem próximo a você quando se deu a mudança, o eclipse, a metamorfose, religiosa transubstanciação. Asas de felino, faro de pássaro. Colibri ao redor das flores, sanhaçu direto aos frutos.

Como no tempo de infância, tateei seus pés, fortes raízes. Minhas mãos vestidas em adolescência, virgens de aventuras despiram-se em sua pele áspera.

Ia aos poucos. Não seria apressado animal, o símio dos primeiros tempos, apenas trepar. Tentava refrear meus impulsos. Tornaria a escalada uma odisséia. Preservado cada momento.

Minhas mãos avançavam. O seu robusto e voluptuoso corpo. O seu aroma me invadia.

Subi como pude.

Fincava as unhas.

Meu rosto colado em sua tez.

A princípio as pernas trêmulas. Com o tempo pernas e braços perderam a composição. Não estava mais em mim. Apenas a pulsação. Meu sangue guiado ainda e sempre pelo aroma. Em combustão as minhas veias.

A cada tentativa crescia o êxtase. As mãos em calos, desnudas, ousavam ir a cada vez mais acima. Desfolhava as partes cobertas...

Até que enfim, eu morto em seus braços. Eu separado de mim, apenas alma. Somente o seu corpo e o meu, a pele toda suor e seiva e o meu espírito pairava por sobre em contemplação.

Deitei-me em seus galhos mais fortes, exausto.

Certo de que não cairia, estiquei o braço ao fruto, antes horizonte. Fruto proibido, tamanho o desejo.

E a manga, abraçou-me rosa. Ofereceu-se aberta pele e carne. E em caldas, fez-se suspiro em minha boca, deserto de toda uma vida de espera."

TANTA ESPERA POR UMA MANGA...RSRS


Texto participante do I Concurso de contos e poemas da Cooperativa Cultural do Rio Grande do Norte.

Agradeço ao autor Valmir, que cedeu um dos seus textos para ser publicado no Pesponteando...



quinta-feira, 22 de outubro de 2009

memórias de minha vó


Falando em histórias, me lembrei de como Madrinha estimulava nossa capacidade imaginativa. Às vezes, ficava horas sentada na área observando as nuvens e suas variadas formas de gente, bicho, e outras coisas... E sempre nos convidava a encontrar outras formas...Seus olhinhos brilhavam naquela mágica brincadeira que tanto contribuiu para minha imaginação. Hoje olho as nuvens e tento encontrá-la.



Estou sempre trabalhando com memórias. Descobri há algum tempo que gosto de tudo que ficou para trás. Tudo que já não existe mais, ou, se existe, é pouco valorizado e/ou colocado à margem. Gosto de músicas de décadas passadas, de filmes que todos já viram e não é mais novidade, de pessoas mais velhas, de fotos antigas, de histórias da infância, de a juventude dos meus pais e avós, e de como a vida era antes da percepção do mundo que tenho hoje. É, acho que sou uma nostálgica! Hoje minhas pesquisas literárias se embrenham pelas vias da memória, e cada vez mais fico fascinada...

Estou entre teoria e prosa como quem fica na junção de café e leite. Sou o novo líquido! Falando em café com leite, me lembrei da minha avó materna, Maria Francisca, uma senhora baixinha, branquinha, de cabelos branquinhos e muito boazinha...e que não conhecia dinheiro. Bem, ela ao cuidar dos netinhos sempre fez questão de alimentá-los com café-de-leite! Era cada "copão"! Apesar de alguns dos meus primos, os mais novos, terem a mordomia da big mamadeira, com um hiper furo no bico para que o líquido descesse mais rápido. Minha vozinha andou nos últimos tempos de vida a caducar. Penso eu, que ela resolveu fazer o que não podia durante toda a vida. Cortou o cabelo curtinho, falava besteira, pintava as unhas, e até resolveu depilar as pernas, coisa que nunca faria se estivesse em sã consciência. Eta falta de memória revolucionária!

Nós a chamávamos de madrinha Nenén. Confesso que houve um tempo em que eu andei meio chateada com ela, isso láaaaaaa na infância, pois cada dia aparecia com um novidade em remédios caseiros para tentar a minha cura física. Certa vez, ela conseguiu um óleo que depois de passado secava e deixava uma aparência de “caca” de vaca. Ela inventava, minha mãe passava e eu chorava....kkkk...mas com o tempo, ela desistiu...Aí que alívio!

Minha vó faz parte do emaranhado de imagens que compõem a minha memória. Na verdade, acho que todo meu interesse por essa temática é coisa dela. Suas histórias, sua vida, e minha saudade. Dela tenho muitas histórias que algum dia se transfigurarão em escrita. Falando nisso, anos atrás, quando entrei na faculdade, li um conto de Aleilton Fonseca, In Memorian, que falava de uma avozinha muito especial, tão quanto a minha. Chorei como um bebê. E fiquei imaginando quantas avozinhas como a minha existem por aí...


Paula Ivony Laranjeira

domingo, 4 de outubro de 2009

Dedos de prosa com o amigo Rosa


Fala, Rosa, quero ouvir suas sagas. Os teus bois. A tua-nossa gente pede passagem.
Nas Gerais percorro o teu caminho, costurando os retalhos da sua-nossa gente à minha-sua gente.
Teus amores me inebriam, me encantam e me arrancam suspiros. Devoro as letras e anseio pular as páginas, mas não o faço, pois temo perder os detalhes nos quais deleito.
Me perco nas matas, nas estradas nesse teu sertão das Gerais. E descubro a astúcia, a sabedoria dessa gente sem diploma.
Sabe, Rosa, estou mais confusa. E bois falam? Os teus falam. Às vezes me sinto boi, animal irracional, levado de um lado para o outro, presa no cabresto, mas meus olhos não "babam" mais, secaram como a terra do meu-nosso sertão. Secaram... E quando essa baba dos olhos seca a gente fica numa agonia sem tamanho.
mas mudando de assunto, queria te apresentar um amigo meu, gente do sertão também, mas do sertão da Bahia, o Aleilton, home de minha estima, cê precisa de vê, ele escreve essas coisas da gente que é uma belezura. mas tem hora que ele escreve coisa muito triste, que até faz chorar.
Sabe, Rosa, a prosa tá boa, mas tenho que terminar de ler Sagarana, um dos livros do grande João Guimarães Rosa.

Paula Ivony Laranjeira


Sagarana, obra que apresenta a paisagem mineira em toda a sua beleza selvagem, rendeu a Giumarães Rosa vários prêmios e o reconhecimento como um dos mais importantes livros surgidos no Brasil contemporâneo. Os contos de Sagarana traz a vida das fazendas, dos vaqueiros e criadores de gado, mundo que Rosa habitara em sua infância e adolescência. Neste livro, o autor transpôs a linguagem rica e pitoresca do povo, registrou regionalismos, muitos deles jamais escritos na literatura brasileira.- Fundação Guimarães Rosa -

Biografia:

"João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo (MG) a 27 de junho de 1908 e era o primeiro dos seis filhos de D. Francisca (Chiquitinha) Guimarães Rosa e de Florduardo Pinto Rosa, mais conhecido por "seu Fulô" comerciante, juiz-de-paz, caçador de onças e contador de estórias.

Joãozito, como era chamado, com menos de 7 anos começou a estudar francês sozinho, por conta própria. Somente com a chegada do Frei Canísio Zoetmulder, frade franciscano holandês, em março de 1917, pode iniciar-se no holandês e prosseguir os estudos de francês, agora sob a supervisão daquele frade.

Terminou o curso primário no Grupo Escolar Afonso Pena; em Belo Horizonte, para onde se mudara, antes dos 9 anos, para morar com os avós. Em Cordisburgo fora aluno da Escola Mestre Candinho. Iniciou o curso secundário no Colégio Santo Antônio, em São João del Rei, onde permaneceu por pouco tempo, em regime de internato, visto não ter conseguido adaptar-se — não suportava a comida.

De volta a Belo Horizonte matricula-se no Colégio Arnaldo, de padres alemães e, imediatamente, iniciou o estudo do alemão, que aprendeu em pouco tempo. Era um poliglota, conforme um dia disse a uma prima, estudante, que fora entrevistá-lo:

Falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituânio, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do tcheco, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração.

Em 1925, matricula-se na então denominada Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais, com apenas 16 anos. Segundo um colega de turma, Dr. Ismael de Faria, no velório de um estudante vitimado pela febre amarela, em 1926, teria Guimarães Rosa dito a famosa frase: "As pessoas não morrem, ficam encantadas", que seria repetida 41 anos depois por ocasião de sua posse na Academia Brasileira de Letras.

Sua estréia nas letras se deu em 1929, ainda como estudante. Escreveu quatro contos: Caçador de camurças, Chronos Kai Anagke (título grego, significando Tempo e Destino), O mistério de Highmore Hall e Makiné para um concurso promovido pela revista O Cruzeiro. Todos os contos foram premiados e publicados com ilustrações em 1929-1930, alcançando o autor seu objetivo, que era o de ganhar a recompensa nada desprezível de cem contos de réis. Chegou a confessar, depois, que nessa época escrevia friamente, sem paixão, preso a modelos alheios.

Em 27 de junho de 1930, ao completar 22 anos, casa-se com Lígia Cabral Penna, então com apenas 16 anos, que lhe dá duas filhas: Vilma e Agnes. Dura pouco seu primeiro casamento, desfazendo-se uns poucos anos depois. Ainda em 1930, forma-se em Medicina, tendo sido o orador da turma, escolhido por aclamação pelos 35 colegas.

Guimarães Rosa vai exercer a profissão em Itaguara, pequena cidade que pertencia ao município de Itaúna (MG), onde permanece cerca de dois anos. Relaciona-se com a comunidade, até mesmo com raizeiros e receitadores, reconhecendo sua importância no atendimento aos pobres e marginalizados, a ponto de se tornar grande amigo de um deles, de nome Manoel Rodrigues de Carvalho, mais conhecido por "seu Nequinha", que morava num grotão enfurnado entre morros, num lugar conhecido por Sarandi.

Espírita, "Seu Nequinha" parece ter sido o inspirador da figura do Compadre meu Quelemém, espécie de oráculo sertanejo, personagem de Grande Sertão: Veredas.

Diante de sua incapacidade de por fim às dores e aos males do mundo numa cidade que não tinha nem energia elétrica, segundo depoimento de sua filha Vilma, o autor, sensível como era, acaba por afastar-se da Medicina. Contribuiu também para isso o fato de o escritor ter que assistir o parto de sua mulher, pois o farmacêutico e o médico da cidade vizinha de Itaúna só terem chegado quando Vilma já havia nascido.

Guimarães Rosa, durante a Revolução Constitucionalista de 1932, trabalha como voluntário na Força Pública. Posteriormente, efetiva-se, por concurso. Em 1933, vai para Barbacena na qualidade de Oficial Médico do 9º Batalhão de Infantaria. Segundo depoimento de Mário Palmério, em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, o quartel pouco exigia de Guimarães Rosa – "quase que somente a revista médica rotineira, sem mais as dificultosas viagens a cavalo que eram o pão nosso da clínica em Itaguara, e solenidade ou outra, em dia cívico, quando o escolhiam para orador da corporação". Assim, sobrava-lhe tempo para dedicar-se com maior afinco ao estudo de idiomas estrangeiros; ademais, no convívio com velhos milicianos e nas demoradas pesquisas que fazia nos arquivos do quartel, o escritor teria obtido valiosas informações sobre o jaguncismo barranqueiro que até por volta de 1930 existiu na região do Rio São Francisco.

Um amigo do escritor, impressionado com sua cultura e erudição, e, particularmente, com seu notável conhecimento de línguas estrangeiras, lembrou-lhe a possibilidade de prestar concurso para o Itamarati, conseguindo entusiasmá-lo. O então Oficial Médico do 9º Batalhão de Infantaria, após alguns preparativos, seguiu para o Rio de Janeiro onde prestou concurso para o Ministério do Exterior, obtendo o segundo lugar. Por essa ocasião, aliás, já era por demais evidente sua falta de "vocação" para o exercício da Medicina, conforme ele próprio confidenciou a seu colega Dr. Pedro Moreira Barbosa, em carta datada de 20 de março de 1934:

Não nasci para isso, penso. Não é esta, digo como dizia Don Juan, sempre 'après avoir couché avec...’ Primeiramente, repugna-me qualquer trabalho material só posso agir satisfeito no terreno das teorias, dos textos, do raciocínio puro, dos subjetivismos. Sou um jogador de xadrez nunca pude, por exemplo, com o bilhar ou com o futebol.

Antes que os anos 30 terminem, ele participa de outros dois concursos literários. Em 1936, a coletânea de poemas Magma recebe o prêmio de poesia da Academia Brasileira de Letras. Um ano depois, sob o pseudônimo de "Viator", concorre ao prêmio HUMBERTO DE CAMPOS, com o volume intitulado Contos, que em 46, após uma revisão do autor, se transformaria em Sagarana, obra que lhe rendeu vários prêmios e o reconhecimento como um dos mais importantes livros surgidos no Brasil contemporâneo. Os contos de Sagarana apresentam a paisagem mineira em toda a sua beleza selvagem, a vida das fazendas, dos vaqueiros e criadores de gado, mundo que Rosa habitara em sua infância e adolescência. Neste livro, o autor já transpõe a linguagem rica e pitoresca do povo, registra regionalismos, muitos deles jamais escritos na literatura brasileira.

Em 1938, Guimarães Rosa é nomeado Cônsul Adjunto em Hamburgo, e segue para a Europa; lá fica conhecendo Aracy Moebius de Carvalho (Ara), que viria a ser sua segunda mulher. Durante a guerra, por várias vezes escapou da morte; ao voltar para casa, uma noite, só encontrou escombros. A superstição e o misticismo acompanhariam o escritor por toda a vida. Ele acreditava na força da lua, respeitava curandeiros, feiticeiros, a umbanda, a quimbanda e o kardecismo. Dizia que pessoas, casas e cidades possuíam fluidos positivos e negativos, que influíam nas emoções, nos sentimentos e na saúde de seres humanos e animais. Aconselhava os filhos a terem cautela e a fugirem de qualquer pessoa ou lugar que lhes causasse algum tipo de mal estar.

Embora consciente dos perigos que enfrentava, protegeu e facilitou a fuga de judeus perseguidos pelo Nazismo; nessa empresa, contou com a ajuda da mulher, D. Aracy. Em reconhecimento a essa atitude, o diplomata e sua mulher foram homenageados em Israel, em abril de 1985, com a mais alta distinção que os judeus prestam a estrangeiros: o nome do casal foi dado a um bosque que fica ao longo das encostas que dão acesso a Jerusalém.

Foi a forma encontrada pelo governo israelense para expressar sua gratidão àqueles que se arriscaram para salvar judeus perseguidos pelo Nazismo por ocasião da 2ª Guerra Mundial. Segundo D. Aracy, que compareceu a Israel por ocasião da homenagem, seu marido sempre se absteve de comentar o assunto já que tinha muito pudor de falar de si mesmo. Apenas dizia: "Se eu não lhes der o visto, vão acabar morrendo; e aí vou ter um peso em minha consciência."

Em 1942, quando o Brasil rompe com a Alemanha, Guimarães Rosa é internado em Baden-Baden, juntamente com outros compatriotas, entre os quais se encontrava o pintor pernambucano Cícero Dias, Ficam retidos durante 4 meses e são libertados em troca de diplomatas alemães. Retornando ao Brasil, após rápida passagem pelo Rio de Janeiro, o escritor segue para Bogotá, como Secretário da Embaixada, lá permanecendo até 1944. Sua estada na capital colombiana, fundada em 1538 e situada a uma altitude de 2.600 m, inspirou-lhe o conto Páramo, de cunho autobiográfico, que faz parte do livro póstumo Estas Estórias. O conto se refere à experiência de "morte parcial" vivida pelo protagonista (provavelmente o próprio autor), experiência essa induzida pela solidão, pela saudade dos seus, pelo frio, pela umidade e particularmente pela asfixia resultante da rarefação do ar (soroche – o mal das alturas).

Em dezembro de 1945 o escritor retornou ao Brasil depois de longa ausência. Dirigiu-se, inicialmente, à Fazenda Três Barras, em Paraopeba, berço da família Guimarães, então pertencente a seu amigo Dr. Pedro Barbosa e, depois, a cavalo, rumou para Cordisburgo, onde se hospedou no tradicional Argentina Hotel, mais conhecido por Hotel da Nhatina.

Em 1946, Guimarães Rosa é nomeado chefe-de-gabinete do ministro João Neves da Fontoura e vai a Paris como membro da delegação à Conferência de Paz.

Em 1948, o escritor está novamente em Bogotá como Secretário-Geral da delegação brasileira à IX Conferência Inter-Americana; durante a realização do evento ocorre o assassinato político do prestigioso líder popular Jorge Eliécer Gaitán, fundador do partido Unión Nacional Izquierdista Revolucionaria, de curta mas decisiva duração.

De 1948 a 1950, o escritor encontra-se de novo em Paris, respectivamente como 1º Secretário e Conselheiro da Embaixada. Em 1951 é novamente nomeado Chefe de Gabinete de João Neves da Fontoura. Em 1953 torna-se Chefe da Divisão de Orçamento e em 1958 é promovido a Ministro de Primeira Classe (cargo correspondente a Embaixador).

Guimarães Rosa retorna ao Brasil em 1951. No ano seguinte, faz uma excursão ao Mato Grosso. O resultado é uma reportagem poética: Com o vaqueiro Mariano. Segundo depoimento do próprio Manuel Narde, vulgo Manuelzão, falecido em 5 de maio de 1997, protagonista da novela Uma estória de amor, incluída no volume Manuelzão e Miguilim, durante os dias que passou no sertão, Guimarães Rosa pedia notícia de tudo e tudo anotava "ele perguntava mais que padre" –, tendo consumido "mais de 50 cadernos de espiral, daqueles grandes", com anotações sobre a flora, a fauna e a gente sertaneja usos, costumes, crenças, linguagem, superstições, versos, anedotas, canções, casos, estórias...

Em ensaio crítico sobre Corpo de Baile, o professor Ivan Teixeira afirma que o livro talvez seja o mais enigmático da literatura brasileira. As novelas que o compõem formam um sofisticado conjunto de logogrifos, em que a charada é alçada à condição de revelação poética ou experimento metafísico. Na abertura do livro, intitulada Campo Geral, Guimarães Rosa se detém na investigação da intimidade de uma família isolada no sertão, destacando-se a figura do menino Miguelim e o seu desajuste em relação ao grupo familiar. Campo Geral surge como uma fábula do despertar do autoconhecimento e da apreensão do mundo exterior; e o conjunto das novelas surge como passeio cósmico pela geografia rosiana, que retoma a idéia básica de toda a obra do escritor: o universo está no sertão, e os homens são influenciados pelos astros.

Em 1956, no mês de janeiro, reaparece no mercado editorial com as novelas Corpo de Baile, onde continua a experiência iniciada em Sagarana. A partir de o Corpo de Baile, a obra de Rosa - autor reconhecido como o criador de uma das vertentes da moderna linha de ficção do regionalismo brasileiro - adquire dimensões universalistas, cuja cristalização artística é atingida em Grande Sertão: Veredas, lançado em maio de 56. O terceiro livro de Guimarães Rosa, uma narrativa épica que se estende por 600 páginas, focaliza numa nova dimensão, o ambiente e a gente rude do sertão mineiro. Grande Sertão: Veredas reflete um autor de extraordinária capacidade de transmissão do seu mundo, e foi resultado de um período de dois anos de gestação e parto. A história do amor proibido de Riobaldo, o narrador, por Diadorim é o centro da narrativa. Para Renard Perez, autor de um ensaio sobre Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas, além da técnica e da linguagem surpreendentes, deve-se destacar o poder de criação do romancista, e sua aguda análise dos conflitos psicológicos presentes na história.

O lançamento de Grande Sertão: Veredas causa grande impacto no cenário literário brasileiro. O livro é traduzido para diversas línguas e seu sucesso deve-se, sobretudo, às inovações formais. Crítica e público dividem-se entre louvores apaixonados e ataques ferozes. Torna-se um sucesso comercial, além de receber três prêmios nacionais: o Machado de Assis, do Instituto Nacional do Livro; o Carmen Dolores Barbosa, de São Paulo; e o Paula Brito, do Rio de Janeiro. A publicação faz com que Guimarães Rosa seja considerado uma figura singular no panorama da literatura moderna, tornando-se um "caso" nacional. Ele encabeça a lista tríplice, composta ainda por Clarice Lispector e João Cabral de Melo Neto, como os melhores romancistas da terceira geração modernista brasileira.

Ainda que não publicasse nada até 1962, o interesse e o respeito pela obra rosiana só aumentavam, em relação à crítica e ao público. Unanimidade, o escritor recebe, em 1961, o Prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra. Ele começa a obter reconhecimento no exterior.

Em janeiro de 1962, assume a chefia do Serviço de Demarcação de Fronteiras, cargo que exerceria com especial empenho, tendo tomado parte ativa em momentosos casos como os do Pico da Neblina (1965) e das Sete Quedas (1966). Em 1969, em homenagem ao seu desempenho como diplomata, seu nome é dado ao pico culminante (2.150 m) da Cordilheira Curupira, situado na fronteira Brasil/Venezuela. O nome de Guimarães Rosa foi sugerido pelo Chanceler Mário Gibson Barbosa, como um reconhecimento do Itamarati àquele que, durante vários anos, foi o chefe do Serviço de Demarcação de Fronteiras da Chancelaria Brasileira.

Em 1958, no começo de junho, Guimarães Rosa viaja para Brasília, e escreve para os pais:

Em começo de junho estive em Brasília, pela segunda vez lá passei uns dias. O clima da nova capital é simplesmente delicioso, tanto no inverno quanto no verão. E os trabalhos de construção se adiantam num ritmo e entusiasmo inacreditáveis: parece coisa de russos ou de norte-americanos"... "Mas eu acordava cada manhã para assistir ao nascer do sol e ver um enorme tucano colorido, belíssimo, que vinha, pelo relógio, às 6 hs 15’, comer frutinhas, na copa da alta árvore pegada à casa, uma tucaneira’, como por lá dizem. As chegadas e saídas desse tucano foram uma das cenas mais bonitas e inesquecíveis de minha vida.

A partir de 1958, o autor começa a apresentar problemas de saúde e estes seriam, na verdade, o prenúncio do fim próximo, tanto mais quanto, além da hipertensão arterial, o paciente reunia outros fatores de risco cardiovascular como excesso de peso, vida sedentária e, particularmente, o tabagismo. Era um tabagista contumaz e embora afirme ter abandonado o hábito, em carta dirigida ao amigo Paulo Dantas em dezembro de 1957, na foto tirada em 1966, quando recebia do governador Israel Pinheiro a Medalha da Inconfidência, aparece com um cigarro na mão esquerda. A propósito, na referida carta, o escritor chega mesmo a admitir, explicitamente, sua dependência da nicotina:

... também estive mesmo doente, com apertos de alergia nas vias respiratórias; daí, tive de deixar de fumar (coisa tenebrosa!) e, até hoje (cabo de 34 dias!), a falta de fumar me bota vazio, vago, incapaz de escrever cartas, só no inerte letargo árido dessas fases de desintoxicação. Oh coisa feroz. Enfim, hoje, por causa do Natal chegando e de mais mil-e-tantos motivos, aqui estou eu, heróico e pujante, desafiando a fome-e-sede tabágica das pobrezinhas das células cerebrais. Não repare.

É importante frisar também que, coincidindo com os distúrbios cardiovasculares que se evidenciaram a partir de 1958, Guimarães Rosa parece ter acrescentado a suas leituras espirituais publicações e textos relativos à Ciência Cristã (Christian Science), religião cristã criada nos Estados Unidos em 1866 por Mrs. Mary Baker Eddy e que afirma a primazia do espírito sobre a matéria – "... the allness of Spirit and the nothingness of matter", a qual habilita compreender a nulidade do pecado, dos sentimentos negativos em geral, da doença e da morte, diante da totalidade do Espírito.

Em 1962, é lançado Primeiras Estórias, livro que reúne 21 contos pequenos. Nos textos, as pesquisas formais características do autor, uma extrema delicadeza e o que a crítica considera "atordoante poesia".

Em maio de 1963, Guimarães Rosa candidata-se pela segunda vez à Academia Brasileira de Letras (a primeira fora em 1957, quando obtivera apenas 10 votos), na vaga deixada por João Neves da Fontoura. A eleição dá-se a 8 de agosto e desta vez é eleito por unanimidade. Mas não é marcada a data da posse, adiada sine die, somente acontecendo quatro anos depois, no dia 16 de novembro de 1967.

Em janeiro de 1965, participa do Congresso de Escritores Latino-Americanos, em Gênova. Como resultado do congresso ficou constituída a Primeira Sociedade de Escritores Latino-Americanos, da qual o próprio Guimarães Rosa e o guatemalteco Miguel Angel Asturias (que em 1967 receberia o Prêmio Nobel de Literatura) foram eleitos vice-presidentes.

Em abril de 1967, Guimarães Rosa vai ao México na qualidade de representante do Brasil no I Congresso Latino-Americano de Escritores, no qual atua como vice-presidente. Na volta é convidado a fazer parte, juntamente com Jorge Amado e Antônio Olinto, do júri do II Concurso Nacional de Romance Walmap que, pelo valor material do prêmio, é o mais importante do país.

No meio do ano, publica seu último livro, também uma coletânea de contos, Tutaméia. Nova efervescência no meio literário, novo êxito de público. Tutaméia, obra aparentemente hermética, divide a crítica. Uns vêem o livro como "a bomba atômica da literatura brasileira"; outros consideram que em suas páginas encontra-se a "chave estilística da obra de Guimarães Rosa, um resumo didático de sua criação".

Três dias antes da morte o autor decidiu, depois de quatro anos de adiamento, assumir a cadeira na Academia Brasileira de Letras. Os quatro anos de adiamento eram reflexo do medo que sentia da emoção que o momento lhe causaria. Ainda que risse do pressentimento, afirmou no discurso de posse: "...a gente morre é para provar que viveu."

O escritor faz seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras com a voz embargada. Parece pressentir que algo de mal lhe aconteceria. Com efeito, três dias após a posse, em 19 de novembro de 1967, ele morreria subitamente em seu apartamento em Copacabana, sozinho (a esposa fora à missa), mal tendo tempo de chamar por socorro.

Em 1967, João Guimarães Rosa seria indicado para o prêmio Nobel de Literatura. A indicação, iniciativa dos seus editores alemães, franceses e italianos, foi barrada pela morte do escritor. A obra do brasileiro havia alcançado esferas talvez até hoje desconhecidas. Quando morreu tinha 59 anos. Tinha-se dedicado à medicina, à diplomacia, e, fundamentalmente às suas crenças, descritas em sua obra literária. Fenômeno da literatura brasileira, Rosa começou a publicar aos 38 anos. O autor, com seus experimentos lingüísticos, sua técnica, seu mundo ficcional, renovou o romance brasileiro, concedendo-lhe caminhos até então inéditos. Sua obra se impôs não apenas no Brasil, mas alcançou o mundo."


Disponível em: hhttp://www.releituras.com/guimarosa_bio.asp acessado em 05/10/09

sábado, 3 de outubro de 2009

Uma semana sem leitura dá nisso...etá resfriado maldito!


Há tempo em que as palavras se perdem no caminho mas elas existem e persistem pois de alguma forma deixam o sinal de sua existência A falta de existência nada mais é do que a certeza do existir Como poderíamos sentir falta de algo que nunca provamos Estou cansada do mundo regrado limitado onde todos delimitam nossas fronteiras territoriais Meu lugar é o mundo não uma parte dele Quero ser tudo Quero provar tudo Quero me perder e quem sabe me achar nesse sumiço Quero ouvir tudo dizer tudo até encontrar as palavras perdidas que o tempo me furtou Às vezes tão inatingível como as estrelas de Quintana que enfeitam o caminho



sábado, 19 de setembro de 2009

"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas"


"Um dia

Um dia descobrimos que beijar uma pessoa para esquecer outra, é bobagem.
Você não só não esquece a outra pessoa como pensa muito mais nela…
Um dia nós percebemos que as mulheres tem extinto “caçador” e fazem qualquer homem sofrer…
Um dia descobrimos que se apaixonar é inevitável…
Um dia percebemos que as melhores provas de amor são as mais simples…
Um dia percebemos que o comum não nos atrai…
um dia saberemos que ser classificado como “bonzinho” não é bom…
Um dia percebemos que a pessoa que nunca te liga é a que mais pensa em você…
Um dia saberemos a importância da frase ” Tu se tornas eternamente responsável por aquilo que cativas…”
Um dia percebemos que somos muito importante para alguém mas não damos valor a isso…
Um dia percebemos como aquele amigo faz falta, mas ai já é tarde demais…
Enfim… um dia descobrimos que apesar de viver quase 1 século esse tempo todo não é suficiente para realizarmos todos os nossos sonhos, para beijarmos todas as bocas que nos atraem, para dizer tudo o que tem que ser dito…
O jeito é: ou nos conformarmos com a falta de algumas coisas na nossa vida ou lutarmos para realizar todas as nossas loucuras…
Quem não compreender um olhar tampouco compreenderá uma longa explicação."

*>Mário Quintana<*

Entrei pela noite, numa estranha solidão. Solidão dos outros, e, principalmente, de mim mesma.



quinta-feira, 17 de setembro de 2009

E ficaram juntos na morte...





























Se conheceram. Se amaram. E ficaram juntos até na
morte.

Ontem conheci Abelardo e Heloísa.

Conhecidos como os amantes imortais, ambos viveram em Paris no século XII. O romance entre Heloísa e o filósofo Pedro Abelardo iniciou-se em Paris, no período entre o final da Idade Média e o início da Renascença.

"Fujo para longe de ti,
evitando-te como a um inimigo,
mas incessantemente
te procuro em meu pensamento.
Trago tua imagem em minha memória
e assim me traio e contradigo,
eu te odeio, eu te amo."
Carta de Abelardo a Heloísa.

"É certo que quanto maior é a
causa da dor, maior se faz
a necessidade de para ela
encontrar consolo, e este
ninguém pode me dar, além de ti.
Tu és a causa de minha pena,
e só tu podes me proporcionar conforto.
Só tu tens o poder de me entristecer,
de me fazer feliz ou trazer consolo."
Carta de Heloísa a Abelardo

Em nome de Deus. Direção Clive Donner
. 1988.

No filme não há apenas lugar para a linda história de amor. A hegemonia da Igreja e seu controle sobre a verdade, sobre Deus, sobre o certo e o errado estão em pauta. Além disso, muitas outras formas de amar são demonstradas na trama. Vale a pena conferir!

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

muito além




Um dia vou querer ser criança
me dedicar a fazer lambança
correr, pular
comer doce na panela
e mingau de milho também

Um dia vou gritar aos quatro ventos
o que calo aqui dentro
por que eu?
por que não eu?

Um dia vou dançar na chuva
como fez Don Lockwood
molhar, subir, descer
e cantar, e gritar

Um dia vou falar a verdade
e todos dirão que sou louca
trarão guilhotina
trarão vinagre

Um dia vou poetizar
versos rimados
que todo amor cantará
E Camões...Amor é fogo
que arde e não se vê

Um dia, não mais que um dia...

Alguém se lembrará...

Que nasci, vivi e sobrevivi

Um dia saberão que fui amada intensamente
por pequenos anões
que nasceram de mim


-Paula Ivony Laranjeira-

terça-feira, 25 de agosto de 2009

A invenção do artista


"Recomendo a leitura de A invenção do artista do amigo Valmir" Clédson Miranda (Mestre em Ciências Sociais pela PUC/SP, e professor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB)



Caríssimo Valmir Henrique de Araújo, Recebi das mão do amigo Clédson Miranda o livro A invenção do artista, e resolvi mandar meu comentário via blog, imagino que chegará até você... Agradeço a “pieguice”, como você chamou, na dedicatória do livro. O que você chama de pieguice, chamo de exclusividade. Sei que em nenhum outro, por você assinado, constará o gracioso trocadilho... Fiquei lisonjeada!


Começo fazendo algo comum em suas crônicas: perguntas.

Você é algum mago, bruxo, ou coisa assim? É cozinheiro? Alquimista?

Quero algo que me explique o fascínio que exerceu sobre mim o teu livro A invenção do Artista. Com esse seu jeito de menino curioso, tagarela, e extremamente meigo e sedutor, tomou-me para ti como se fosse um dos meus sobrinhos: exigiu atenção exclusiva, tive que ser sua, ouvir suas histórias, responder suas perguntas, me empolgar com suas respostas... Sentir teus sabores.

Falando em sabores, como conseguiu colocar gosto nas palavras? E nas histórias?

Isso é bruxaria pura... Ou é mágica...

Senti gosto de menino perguntador; gosto de O pequeno príncipe; gosto de Luiz Fernando Veríssimo; gosto de “lorota”; mas também, gosto de criança malvada que mata passarinho, lagartixa; gosto de anjinho sem vida, sem futuro; gosto de sonho, de saudade e de faculdade... Gosto de Meu pé de laranja lima.

Outra coisa, você é um menino muito “perguntador”, quer saber tanta coisa. Coisa que não sei. Coisa que ainda não pensei. Outras coisas imagino, mas não sei se é certo. E se eu tiver resposta para todas as tuas perguntas, o que acontecerá? Ganho um chocolate, um tiro ou uma camisa de força? Às vezes é bom saber, às vezes dá medo...

Não me leve a mal, mas sempre achei que física era coisa de doido. E sempre achei que literatura era coisa de gente “sabida”. Mas você misturou tudo, virou café com leite, não dá para separar. Será que lendo seu livro vou virar uma sabida doida, ou uma doida sabida? (risos)

Calma aí, a escrita menino virou, num passe de mágica, reflexão, contestação, ciência e consciência, é um autor homem-maduro que agora, se pôs a escrever na mão do menino perguntador.

Que tinta é essa que usa para escrever nas páginas do teu livro?

Olha o cheiro que sai das folhas: cheiro de livro aberto, cheiro de pensamento na cabeça, de ideia virando coisa, cheiro de lâmpada sendo ligada. Como conseguiu esses odores? Será que não foi coisa do gato?

Não gosto de gato, eles me olham estranho, ainda mais gato que fala. Às vezes, finjo para meus sobrinhos que gatos falam, e faço a voz do gato. O gato de botas... Agora vou pensar no seu gato Descartes. Um momento! Tire-me uma dúvida: penso por que existo, ou existo por que penso? Eis a velha indagação...

Mas indagar é necessário, como necessário é respirar.

Com sua escrita voltada para as inquietações filosóficas e cientificas, parei vários momentos a leitura para pensar sobre a lógica das coisas e parafusos, das pessoas, do mundo...

Neste momento, estou na calçada de uma casa, numa cidadezinha desconhecida, que devido a um pequeno riacho, brotou no sertão baiano. O vento sopra meus cabelos desalinhando todo o penteado milimetricamente planejado, os pardais sentados no fio de alta tensão cantam, pessoas passam conversando, me olhando com sua costumeira curiosidade, o que ela tanto ler? O que escreve?

Estou pensando... Pensando nessa alquimia perfeita do universo, onde estranhamente supomos ser únicos. Pensando e repensando-me enquanto ser, sujeito agente e paciente nesse hibrido social, motivada pelo A invenção do Artista de Valmir Henrique de Araújo. Esse foi o fruto da primeira impressão, de uma leitura cheia de prazer, sem muito pensar, sem analises, sem teorias e teóricos, aqui consta a visão da menina (risos) que corre empolgada para descobri o que se esconde por entre vocábulos e frases. O fruto de quem ambiciona um dia ser estudiosa literária, com todo o conhecimento necessário, as teorias e teóricos para subsidiar o dito, bem como a visão da águia para bisbilhotar as entrelinhas, poderá ser mais lento.


TAMBÉM RECOMENDO A LEITURA!!

Paula Ivony Laranjeira


Para contatos com o autor, compra do livro, ou para conhecer as outras obras de Valmir Henrique de Araújo entre em contato pelo e-mail: valmirboaideia@yahoo.com.br


Valmir Henrique de Araújo possui graduação em Licenciatura em Física pela Universidade Católica de Pernambuco (1992), mestrado em Tecnologias Energéticas Nucleares pela Universidade Federal de Pernambuco (1995) e doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, na linha de pesquisa: estratégia e produção do conhecimento.(2009). Atualmente é professor Assistente da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Ganhador de vários prêmios.

Livros publicados: A ERA DOS PASSAROS SUADOS (1996), BUSCAPÉ (1997), DOCE SONHO PONTUAL (1997) e A INVENÇÃO DO ARTISTA (2005).


segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Fuçando o passado, encontrei o texto abaixo






O conhecimento e a informação são requisitos desejados por muitos, porém saber um pouco mais, costuma nos afastar das coisas simples, nos impede de ter esperança, de acreditar nas pessoas etc, fato que se percebe no filme “ Narradores de Javé”, e em especial, na personagem Antonio de Biá, que em determinada cena demonstra ao telespectador seu descaso frente a calamitosa situação da sua cidade. Biá não acreditava que as narrativas simplórias de sua gente fossem capazes de impedir a ganância e o progresso.

Nas últimas cenas do filme, no momento em que os moradores da cidade viram as costas para Biá, é possivel perceber, que este tenta, por sua vez, conscientizá-los da inutilidade de tal ato, já que ninguém vai parar a construção de uma barragem por causa de meia dúzia de pessoas que nem se quer sabem escrever. Segundo ele, as narrativas “ é melhor que fiquem na boca das pessoas, porque ninguém poderá contá-las bem no papel”. Os moradores, com isso, viram as costas para o progresso/futuro/Biá. No entanto, por um momento, Biá olha para o passado, e é tocado pelo sentimento de culpa, que logo passa, em seguida ele caminha na direção do futuro deixando atrás de si ruínas, catástrofes do passado, fragmentos de muitas vidas analfabetas, na maioria das vezes escondidas em lugares desconhecidas.

Destarte, é para este passado ignorante que Biá volta seu olhar, sem conseguir desviar-se já que o mesmo faz parte dele também, apesar das “ informações” que adquiriu, lhes dizerem o contrario. Nessa linha de pesnamento, é possível associar o gesto de Biá à mesma cena no quadro de Klee, “Ângelus Novus”, o qual Benjamin descreve tão bem:


“(...) um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente (...) seu rosto está dirigido para o passado. Onde nos vemos uma cadeia de acontecimentos, ele deu uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruínas sobre ruínas e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso”.


Biá foi se distanciando do seu povo, como nós nos distanciamos das narrativas, da nossa história, das nossas raízes. Ao analisar o filme, o texto e a pintura, entendemos o que Benjamin quis dizer ao falar sobre a narrativa em Leskov: “ descrever um Leskov como narrador não significa trazê-lo mais perto de nós, e sim, pelo contrário, aumentar a distância que nos separa dele”. No entanto, Walter Benjamin, felizmente se equivocou quando previu a morte da narrativa para os nossos tempos, já que ainda há escritores empenhados em narrar, deixando transparecer no papel um misto de conselhos e relatos cheios de experiências, sabiamente incrustados como, por exemplo, no livro O Desterro dos mortos, de Aleilton Fonseca, autor baiano que escreve seus contos possibilitando ao leitor a sensação de estar ouvindo histórias em vez de lendo.

Entretanto o mesmo não acontece no cotidiano das pessoas, que sempre apressadas vão se esquecendo de contar suas experiências, aí sim percebemos o quanto a arte de narrar se distancia de nós. Talvez por isso, caminhamos para o futuro com os olhos no passado.


Por: Paula Ivony Laranjeira

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

ñ fuja é regra!




"O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem" (João Guimarães Rosa)


"Mas quantas vezes coragem temos e dela nos afastamos
deixando o sonho escorrer por entre os dedos
vivendo sem viver
se a vida esquenta e esfria
construa um casebre com lareira na beira do rio
para que possas esquentar-se e refrescar-se
a depender do clima que te projeta o viver
no aperta e afrouxa o aprendizado do alívio
mas qual vantagem teria viver sempre folgado
se o outro lado desconhecer
e saber-se constante
imutável
qual o sentido do viver
quão doce é contemplar o sono da criança
sua calmaria tranquila
que tranquiliza e sossega
para no instante vindouro
seu excesso de vida fazê-la desinquieta
se o contrário fosse estaria desfigurada a criança
como estaria desfigurado o viver"
Paula Ivony Laranjeira


"O mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, mas que elas vão sempre mudando." (João Guimarães Rosa)


"Somos uma eterna metamorfose
disforme
biforme
que enforma e desenforma
a depender da forma
nesse exato instante
fujo da regra
do ponto
do encontro
e faço do desencontro
minha vida
meu constante aprendizado
no risco
no rabisco
do bicho esquisito
que sai da forma."
Paula Ivony Laranjeira


segunda-feira, 27 de julho de 2009

Estranamente lúcida...

“Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior do que eu mesma, e não me alcanço. Além do quê: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano — já me aconteceu antes. Pois sei que — em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade — essa clareza de realidade é um risco." Clarice Lispector

Há alguns dias comecei a me olhar no espelho da minha consciência, da minha ciência. E entre as tristes divagações me encontro, e, algumas vezes, me perco no insondável que vaga em mim. Revirei minha infância tão doce e simples, mas com marcas profundas, algumas na memória, outras nas histórias que ouço.
O lamentável episódio da raposa louca que tenta devorar uma criancinha de onze meses, faz parte da minha biografia. Mas felizmente, existem heróis, e um deles me salvou, matou o bicho feroz a machadadas. A mesma criança que se livrou da raposa não conseguiu se salvar dos hospitais, dos exames, da cadeira, dos olhares curiosos. Penso que tal bicho deve ter deixado algum gene que aos poucos me transformou em ET. Porém, um Et bem esperto, como todo alienígena que se prese. Vivo minha estranha lucidez: a de quem fala e a de quem cala; a de quem luta e da de quem desiste, a de quem sabe a si mesmo pequena e gigante "na inutilidade da vida" .

"Quem luta não perde tudo. Perde quem fica de braços cruzados.
Quem luta deixa, pelo menos, exemplo a ser seguido."

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Maia de 1000 vistantes

Gostaria de agradecer a todos os amigos e visitantes do Pesponteando...Hoje o blog chegou a marca de 1000 visitantes...Confesso que não imaginei encontrar tantos leitores em tão pouco tempo. Está sendo uma alegria indescritível...
É muito bom saber que meus textos e a literatura, em especial, conta com bons leitores...É uma honra tê-los constantemente por aqui....
Este é o meu selo comemorativo...Que todos aqueles que contribuíram possam levar esse mimo em agradecimento a tão amada visita....

Abraços