5 de novembro de 2009

Vida de espera

Valmir (de vermelho e livro no colo) durante a premiação

Por: Valmir Henrique de Araújo


"Eu prometi nada dizer dessa experiência. Manteria segredo.

Jurei obedecer ao nosso pacto. Tal o início no Éden. Mas vazou.

Desde pequeno já lhe admirava. Não poderia ousar, senão olhos pidões, a boca encharcada de saliva.

Cresci apressado no desejo de chegar até você. Maldizia os rapazes que lhe rodeavam até conseguir o que queriam.

Acompanhava as tentativas deles. Via como organizavam filas. Apostavam que seria o vencedor. Achava intolerável aquilo.

Eles faziam comércio. Como poderia eu, então, lhe imputar culpa? Eu lhe achava a mais linda das mais lindas. Para mim, tudo que eles tramavam era indigno. Era você sozinha para servir a todos.

Com as varas deles nas mãos enfiavam em você. Via como suas lágrimas escorriam. Os urros deles quando você cedia. E quando você resistia? Eles atiravam pedras em reiteação aos julgamentos bíblicos.

As tentativas de trepadas deles em você eu as acompanhei todas. Caiam, eu via. Mas eu não. Não cairia. Tinha o exemplo deles. Saberia a estratégia, o caminho a seguir. Teria uma vida inteira para lhe conquistar. Não tinha pressa em lhe provar. O seu sabor eu já o sentia em seu aroma endereçados para mim em vento leve.

A vida pareceu uma eternidade.

Crescer é uma câmara lenta que a gente tem de tolerar.

Finalmente cresci.

Naquele dia o seu cheiro estivera mais forte. Coisa de estação. A sua e a minha. Você madura. Eu adolescente. Você viçosa. Eu hormônios em erupção. Ânsia nunca dantes sentida, tamanha a força do desejo.

Eu era um animal em fúria, cego. Guiado pelas acesas narinas, fui.

As minhas presas brilhantes, garras afiadas.

Eu estava bem próximo a você quando se deu a mudança, o eclipse, a metamorfose, religiosa transubstanciação. Asas de felino, faro de pássaro. Colibri ao redor das flores, sanhaçu direto aos frutos.

Como no tempo de infância, tateei seus pés, fortes raízes. Minhas mãos vestidas em adolescência, virgens de aventuras despiram-se em sua pele áspera.

Ia aos poucos. Não seria apressado animal, o símio dos primeiros tempos, apenas trepar. Tentava refrear meus impulsos. Tornaria a escalada uma odisséia. Preservado cada momento.

Minhas mãos avançavam. O seu robusto e voluptuoso corpo. O seu aroma me invadia.

Subi como pude.

Fincava as unhas.

Meu rosto colado em sua tez.

A princípio as pernas trêmulas. Com o tempo pernas e braços perderam a composição. Não estava mais em mim. Apenas a pulsação. Meu sangue guiado ainda e sempre pelo aroma. Em combustão as minhas veias.

A cada tentativa crescia o êxtase. As mãos em calos, desnudas, ousavam ir a cada vez mais acima. Desfolhava as partes cobertas...

Até que enfim, eu morto em seus braços. Eu separado de mim, apenas alma. Somente o seu corpo e o meu, a pele toda suor e seiva e o meu espírito pairava por sobre em contemplação.

Deitei-me em seus galhos mais fortes, exausto.

Certo de que não cairia, estiquei o braço ao fruto, antes horizonte. Fruto proibido, tamanho o desejo.

E a manga, abraçou-me rosa. Ofereceu-se aberta pele e carne. E em caldas, fez-se suspiro em minha boca, deserto de toda uma vida de espera."

TANTA ESPERA POR UMA MANGA...RSRS


Texto participante do I Concurso de contos e poemas da Cooperativa Cultural do Rio Grande do Norte.

Agradeço ao autor Valmir, que cedeu um dos seus textos para ser publicado no Pesponteando...



3 comentários:

Dolores Oliveira disse...

É incrível o vício que o cérebro adquire de inferir sobre alguns assuntos... kkkkk, já estava imaginando coisas... Realmente esse texto com suas palavras insinuantes, de uma ambiguidade recorrente, deixa mesmo marcas de algo mais picante. Porém, o desfecho é incrivelmente inocente. Parabéns ao autor Valmir. Adorei!

Pedro Luso de Carvalho disse...

Olá, Paula!

Passei por aqui não apenas para ler as matérias do teu blog, mas, também, para dizer que foi uma pena você ter excluído o seu comentário no meu texto "De poemas & De Poetas", que estava muito bom, e que motivou o encaminhamento de muitas mensagens de blogueiros que analizaram positivamente o seu comentário, o que meu deu a oportunidade para dizer a eles, em resposta aos seus e-mails, que não era minha intenção desmotivar escritores e principalmente poetas novos a seguir escrevendo; ao contrário, pretendia dizer que escrevessem, por mais cedo que fosse, mas que publiquem seus trabalhos (em livros), depois de dar um tratamento esmerado no que escrevem.

Abraços,

Pedro Luso.

Léo Metallica disse...

Sexo e frutas? Perdí todo o tesão.

Direto do Rio.
Beijos.