5 de maio de 2011

Solombra

Eu sou essa pessoa a quem o vento chama,

a que não se recusa a esse final convite,

em máquinas de adeus, sem tentação de volta.

Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza.

Eu sou essa pessoa a quem o vento leva:

já de horizontes libertada, mas sozinha.

Se a Beleza sonhada é maior que a vivente,

dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho?

Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.

Pelos mundos do vento, em meus cílios guardadas

vão as medidas que separam os abraços.

Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:

“Agora és livre, se ainda recordas.”

MEIRELES, Cecília. Solombra. In: MEIRELES, Cecília. Poesia Completa. Edição do centenário. Vol.II. Organização de Antonio Carlos Secchin. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. p.1273,4.




Quando li essa poesia fiquei encantada, melancólica, triste, aliviada, leve, livre...

Senti vontade de estar nas mãos do vento, de por ele ser despida

E nua de amores, de conceitos, de deveres...

Ser apenas uma brisa calma, suave, sem ponto de partida ou de chegada.

Eis a poesia, essa expressão divina cunhada pelas mãos do poeta em tábuas

Palpáveis aos humanos, é o sagrado manifestado a todos,

Mas por muitos desprezada... Vôo desconhecido.

7 comentários:

Lindy Cardoso disse...

Li e me lembrei de uma personagem de Cem Anos de Solidão: Remédios, a Bela. Ela gostava de viver livre, nua ao vento e um lindo dia foi com ele pelos ares, voou pelo céu. Era anjo.

Bjs

Gerana Damulakis disse...

Grande Cecília, sem dúvida. É um deleite para nós que precisamos da poesia.
Adorei seu comentário. Comigo, tudo ótimo. Com o blog, andei me aborrecendo e estou dando um tempo. Um dia, quem sabe...
Tudo de bom e um beijo e minha admiração.

Nilson Vellazquez disse...

Eu quero ser sonho!

Lia disse...

oi Paula,
passei um bom tempo em seu blog hoje.
Amei suas fotos. Gostaria de saber onde as conseguiu ou se são suas?
Logo estarei montando um blog sobre costura, estou terminando um curso tecnico em costura e estou amando.
Assim que der me fala.
beijo
parabens pelo blog, ele eh lindo!

Tais Luso disse...

Oi, Paula, também adorei este poema. Na verdade, muitos poemas não tem o que muito comentar, poema a gente sente, é como uma flecha que vem direto aos nossos sentimentos. E este é um deles. Belo por si só. Palavras podem estragá-lo!

grande beijo
Tais Luso

Celêdian Assis disse...

Olá Paula,

Solombra é uns dos poemas de Cecília que mais gosto. Creio que é exatamente porque ele nos propicia liberdade, asas para voar tão longe, quanto os destinos do vento.

O seu comentário ao poema é mais uma poesia, pois você desnuda completamente a própria essência dele.

Querida, desculpa não a estar frequentando mais amiúde, ou por vezes venho, mas não tenho deixado comentários. Ando em uma verdadeira batalha com o tempo e as obrigações profissionais. Mas saiba que é muito prazeroso passar por aqui.
Um beijo
Celêdian

Paula: pesponteando disse...

Li amiga, vc sempre enriquecendo minhas postagens...e me futucando...

Gerana, fico feliz que seja um afastamento intencional.

Nilson, então que sejas vc um sonho lindo!

Lia, as imagens não são minhas. Encontrei quase todas em um site russo, mas não sei onde deixei o endereço. Se quiser pode pega-las aqui sem problemas...

taís, de fato, poesia a gente sente. ou "toca ou não toca".

Calêndian, também ando ausente por conta de certos afazeres. Obrigada pelas palavras.

Amigos, é sempre muito bom quando vcs trazem um retalho para esta colcha...obragada! E perdoem minha ausência. bjs