20 de novembro de 2010

Literatura brasileira em preto e branco



Por: Paula Ivony Laranjeira

Embora o fim do tráfico negreiro tenha acontecido em 1850, a abolição em 1888, é somente a partir de 1920 que se trava com mais força, por parte dos afro-brasileiros, a luta por seus direitos e a busca por uma identidade racial em uma sociedade que “negava” a própria existência do preconceito, como bem lembra Jorge Schwartz em Vanguardas Latino-Americanas (EDUSP, 1995). A partir daí, o afro-descendente que se via como objeto assujeitado e quase sempre escravizado, agora tem uma literatura não apenas feita sobre si, ele toma a “pena” e se inscreve como sujeito e escreve para si partindo do seu ponto de vista, e não mais do colonizador. Tal mudança passa a vigorar não somente no Brasil, mas na literatura norte americana, na inglesa e, especialmente, nas produções africanas após o “fim” do colonialismo.
Em 9 de janeiro de 2003 entrou em vigor, a Lei Federal 10639/2003  que torna obrigatória a inclusão do estudo das “Relações Étnico-Raciais e o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana” nas escolas brasileiras. Com isso, há o “descobrimento” e a participação do negro em nossa sociedade. Desta data em diante, ele, o negro, passa a fazer parte da história e a ter uma história a ser repensada, além disso, se reconhece sua contribuição cultural e “até” seus talentos. Se antes ele era sujeito apenas nos campos de futebol e nas rodas de pagode, agora já “pode” ser um sujeito agente e atuante em vários setores da sociedade. Mas é como se a História vestisse nova roupa feita de tecidos rotos e velhos, e o mesmo que aconteceu no passado se repete, e ao invés de uma princesa-fada-madrinha que assina uma lei “dando” liberdade aos homens-escravos-negros brasileiros, no século XXI se fez através de uma lei discutida e votada por deputados magos-padrinhos que enfim dizem: “agora” vocês podem fazer parte da história, “agora” sua cultura, seus costumes, etc. podem ser partilhados.
O que a maioria desconhece é que desde o inicio do século XX os negros e negras deste país, em atos firmes na busca pela própria identidade, a qual foram destituídos ao passar simbolicamente  várias vezes ao redor da árvore do esquecimento, ainda em solo africano, e em seguida, ao atravessar o Atlântico. Porém, a alma negra acompanhou tais sujeitos nos porões dos navios negreiros, e depois de anos acorrentada nos troncos, se auto-proclama livre e ressurge como a fênix, inicialmente através dos movimentos abolicionistas e posteriormente com a Frente Negra Brasileira, com o MNU, com Geledés, o Quilombhoje, o Negrícia, Gens, entre outros movimentos. No entanto, esta era uma luta sem holofotes, sem a mídia, foi o combate “vencido” em gritos abafados, mas lembrem-se, jamais emudecidos.
E é justamente para esta “invisibilidade” que se voltará o olhar neste texto: àquilo que nos foi negado saber e conhecer, mais precisamente à produção literária em que o eu-enunciador negro aflora. Mas é nos autores surgidos a partir da década de 1960 que vamos nos ater, citando-os de forma superficial, só para dar ciência de sua existência e questionar a partir disso sua segregação.    
Ao observar a historiografia da literatura brasileira é possível encontrar autores negros e mulatos destituídos aparentemente de sua identidade, cujo representante mais citado é Machado de Assis, “acusado” de não levantar em seus textos a bandeira contra o preconceito, porém o que se observa é que em suas crônicas, ele lamenta a condição dos escravos, louva os que os libertam e critica os que apóiam o sistema; em alguns dos seus contos há uma postura afro-brasileira, como nos contos Pai contra mãe (1906) e O casa da vara (1899); além disso, em seus romances não aparece o olhar explorador, menos ainda o escravista.
Se temos autores polêmicos em seus discursos, temos também aqueles que tiveram seus discursos “silenciados” por assumirem abertamente na literatura a identidade negra, é o caso de Maria Firmina dos Reis, que em 1859 lança Úrsula, romance em que o negro aparece como sujeito e representante de valores morais; temos também Domingos Calda Barbosa (1738-1800), poeta e violeiro,  além de outros esquecidos e perdidos.
Em 1960, ano em que se inicia a comemoração ao dia da Consciência negra no 20 de novembro, nasce também o internacionalmente conhecido Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus, uma negra favelada que vende em uma semana mais de dez mil exemplares do seu primeiro livro, e na sequência lança Casa de alvenaria e Diário de Bitita. Outra autora com destaque internacional é Aline França, que já está na segunda edição na França com o livro A mulher de Aleduma. No grupo masculino destaca-se Joel Rufino dos Santos, que entre outras produções cita-se O dia em que o povo ganhou e Quatro dias de rebelião, tendo como objetivo reexaminar a posição do negro na história. Há também Romeu Crusoé que em 1951 publica A maldição de Canaã, raridade que constitui o primeiro romance negro da modernidade, além deste tem Filho nativo e negrinho e o inédito Crepúsculo noturno. Porém, este autor vive sozinho e esquecido no Rio de Janeiro.
Outros nomes representativos e atuantes na literatura afro-brasileira, e que vale citar são: Oswaldo de Camargo,  Conceição Evaristo, Oliveira Silveira, Geni Guimarães, Mirian Alves, Éle Semog, Cuti, Esmeralda Ribeiro, Marcio Barbosa, Sacolinha, Celinha (Célia Aparecida Pereira), Cristiane Sobral, Marise Tietra, Jônatas Conceição da Silva,  Adão Ventura, José Carlos Limeira, Elisa Lucinda e tantos outros que publicam desde 1978 nos Cadernos negros, sem contar aqueles que publicam de forma independente.
Depois de elencar tantos nomes que escrevem a partir de um eu-enunciador que se sabe negro e se quer negro, como bem lembra Zilá Bernd, vem a pergunta: Quais destes autores você conhece? Quais deles, depois da lei 10639/2003, estão citados nos livros didáticos? Vale salientar que em um país territorialmente grande, e com uma vasta produção literária como o Brasil, não se é obrigado a conhecer todos os escritores e suas obras. Mas não conhecer nenhum representante de uma literatura voltada a discutir e representar temáticas afro-descendentes é no mínimo, um convite a refletir sobre o espaço para tais autores nas grandes editoras, na mídia, nas escolas e nas universidades. 



Este texto também está disponível em Palavra Fiandeira 

3 comentários:

Nilson Vellazquez disse...

Viva o negro na literatura!

Lindy disse...

Preciso dividir com os demais leitores deste blog uma informação: O programa A Cor da Cultura, exibido na TV Cultura, divulga nas escolas brasileiras um material de reconhecimento aos afro-brasileiros, contendo um DVD com o título "Heróis de Todo o Mundo" pelo qual é possível conhecer ou relembrar os nomes de negros e negras que fizeram parte de vitórias da nossa história. Temos ilustres nomes na literatura, música, artes, ciência e até nos assuntos tidos por insignificantes (trabalhos braçais ou manuais), contudo dignos de admiração, pois foram (e assim permanecem!) as mãos e os braços de negros, indígenas e outros povos marginalizados que ergueram esse país.
Ainda cabe acrescentar que muitos nomes ali exibidos são conhecidos pelo talento, sucesso, entretanto, não lhes é remitido por meio da mídia a cor da pele ou a descendência destes. A título de exemplo: Mário de Andrade, filho de pais afrodescendentes.
Quem tiver interesse de saber mais sobre o material procure na internet o site da TV Cultura ou do Programa A Cor da Cultura.
Bom, agora o comentário sobre o texto: COMPLETO, já que apresenta as informações necessárias ao interlocutor ansioso por saber quais, quantos, onde estão, o que escreveram e ainda escrevem os literatos negros.
(Um dia ainda escrevo assim como vc!)
PARABÉNS!!!! Mais uma vez vc deixa esta leitora babando na tela do computador! Rsrsrsrsrs
Bjus Flor!

Ademir Furtado disse...

Olá
Bem, você, pelo menos conhece vários dos autores que apresentam o negro como sujeito, e não como objeto. E se encarrega de listar eles em blog. isso já é uma coisa muito importante.
Eu confesso abestalhadamente que não conheço nenhum deles. Apenas ouvi falar da favelada que mencionaste, mas nunca encontrei um livro dela.
E ainda tem um outro agravante. Os grandes escritores que apresentam o negro com uma visão ainda escravocrata, mesmo no século XX. É o caso, atualmente gerador de polêmica, do Monteiro Lobato, e aqui no sul, o consagradíssimo Érico Veríssimo.
Fica difícil competir assim, né