7 de junho de 2010

Cori


*Paula Ivony Laranjeira*

Meu velho pai é uma figura.
Um senhor magricela de 75 anos,
que depois de muito trabalhar na roça,
se dá ao luxo de dormir e pescar.
O velhinho acorda as três horas da manhã
e vai para seu recanto sagrado: a roça.
Não pensem que lá tem plantação, pois não tem.
Não pensem que se cria gado, galinhas ou porcos.
Resta-lhe apenas uma vaquinha,
há os animais nativos que vivem na mata e bebem numa nascente.
Percorre 14 Km de ida e volta, diz ele, ser para exercitar.
Mas acho que é para botar o olho no mato,
sentir o cheiro da terra,
matar a saudade do tempo em que plantava e colhia.
Imagino meu velhinho naquele casebre abandonado,
sentado na porta, pitando seu cigarro, soltando fumaça e lembrando...
lembrando dos seus meninos correndo pelos matos,
procurando abelhas para colher o mel,
fazendo diabruras com os bichos,
o pasto feito, as lavouras variadas, as criações diversificadas...
Coisa que lá não existe mais.
Quando volta deste seu paraíso, meu pai deita no sofá e dorme.
Meu olhar fica horas a espera do sono profundo que deixa o braço dele cair
passando da testa ao nariz, e deste à boca.
Eu me comovo em risos,
contemplo sua história, sua luta,
admiro seu exemplo, corrijo seus erros...
Neste homem do sertão, o riso é raro, mas compensador.
Sua alegria está na pescaria:
arrumar a tralha, procurar iscas,
arrumar as varas, e trazer o peixe.
Pescador importante, não falta no grupo de amigos,
não que ele seja o grande pescador,
mas é o motivo do riso dos companheiros,
dizem as más línguas que, certa vez, em pescaria,
veio uma onça pintada, cheirou corpo dele,
mas logo saiu, por falta de carne.
Este velho de que falo, sempre gostou de "malinezas"
Conta a minha mãe, que ele, homem casado e com filho,
para deixar as irmãs loucas, aprontava muitas.
Certa vez, quando uma das minhas tias saiu,
foi ele como um gato sorrateiro na casa vazia,
pegou o recém-nascido e se escondeu com ele no mato,
minha tia quando chegou dando falta da criança
ficou louca, e saiu gritando que lhe roubaram o filho.
Meu pai aparecia logo depois, com cara limpa, riso de criança que apronta,
e o menino nos braços rindo da pobre da minha tia.
Meu velhinho não é mesmo uma figura?

7 comentários:

CESAR CRUZ disse...

Gostei! Bonita, e hilária, história.

bjs

Clédson Miranda disse...

Quem vê aquela seriedade toda, nem acredita nisso tudo que você fala! Eu estava imaginando outra pessoa! Agora sei a quem seu irmão puxou! (rsrsrsrsrs)

ju rigoni disse...

Seu texto, pleno de amor, humor, delicadezas e poesia, - resgatando, reverenciando memórias, é também uma lição onde se compreende a essência e a beleza da simplicidade. Grande é o pai que planta tal semente no coração de seus filhos! Lindo, Paula!

Beijo. E inté!

manuel afonso disse...

"Meu velhinho não é mesmo uma figura?"
É sem dúvida, uma grande figura, de coisas simples mas valiosas, de saudades e de respeito.

É, ainda, uma lição de vida.

Nem sempre quem muito corre consegue viver mais e melhor, pois é preciso saber saborear os momentos de que é feira a nossa vida.

Lindy disse...

Kkkkkkkkkk...Seu Cori é mesmo muito alto-astral!!! Lindo texto, falando do seu velho pai.

Rogério Soares disse...

Lindo, terno, comovente...esse poema possui a leveza das coisas realmente belas. Você possui talento. Parabéns.

Paula Laranjeira disse...

Obrigada, queridos amigos pelo carinho das palavras, pelo encorajamento...Meu pai! Quem o conhece não esquece. Sua simplicidade é seu maior carisma.

Bjs a todos (Cesar, Cledson, Ju, Manoel, Lindy e Rogério)