15 de maio de 2010

os da minha rua, Ondjaki

"senti que despedir-me da minha casa era despedir-me dos meus pais, das minhas irmãs, da avó e era despedir-me de todos os outros: os da minha rua, senti que rua não era um conjunto de casas mas uma multidão de abraços, a minha rua, que sempre se chamou Fernão Mendes Pinto, nesse dia ficou espremida numa só palavra que quase me doía na boca se eu falasse com palavras de dizer: infância." ONDJAKI. Os da minha rua.2 ed, Portugal: Leya Bis 2009, p.113.


Camarada Ondjaki,


Como anda o continente africano em tempos de Copa do mundo? Presumo que mesmo sendo realizada na África do Sul, os outros países devem estar contagiados. Aqui no Brasil época de Copa não dá outro assunto, mesmo sendo realizada em outro continente.

Entretanto prefiro mudar de assunto, falar de algo que gosto mais, como por exemplo: Literatura. Neste momento tenho em mãos o seu livro Os da minha rua, presente de uma amiga virtual de Portugal, a São. Antes de mais nada, lembro que para esta leitura foi necessário o encontro de três continentes e três países diferentes falando a mesma língua: Portugal, Angola e Brasil. Sei que para falarmos a mesma língua temos um processo histórico dolorido, impositivo, segregador. No entanto, desculpe meu egoísmo, mas sem os desacertos da daquele tempo eu não estaria lendo seu belo texto e nem estaria ele me ajudando a repensar o pensamento que por tanto tempo nos fora imposto: a supremacia de uns em relação a outros, fato que considero intolerável.

Mô camba, na verdade você não era nenhum estranho para mim, pois já havia lido algo da sua produção em seu site e na faculdade, mas foram textos fragmentados, nada de livro completo. O que me conferia uma visão panorâmica do seu trabalho. Claro, que o fato de ler um livro também não me faz conhecedora de todo o seu trabalho, mas abre portas para buscar mais pelo gosto despertado pelo primeiro livro. E foi com essa leitura que descobri mundos parecidos a nos unir, visto que o que encontrei na narrativa, denuncia o que você traz em seu imaginário. Creio que um pouco disso vem das suas vivências ou colhido da experiência alheia.

Sabe Ondjaki, observei tanta coisa em comum entre as crianças brasileiras e angolanas. Criança deve ser uma espécie universal com tempo determinado de sobrevivência, depois vira adulto e cada um vai ganhando a forma do lugar social que ocupa. Por que não crescemos e continuamos com a mesma pureza no olhar que nos faz observar o mundo de uma forma mágica?

Ao começar a leitura voltei à casa em que nasci e morei até os dezessete anos, na rua em que vivi os anos mais felizes. Felizes porque entre eles está a criança que tanta saudade deixou em mim. Parece que esta sensação também é compartilhada por Ndalu, o narrador-personagem que vai partilhando suas aventuras e seu olhar sobre o mundo, as pessoas e situações desde a infância até a adolescência.

É engraçado como na infância sempre temos um amigo que gosta de fazer alguma refeição em nossa casa, ou o inverso. Mas isso é bom, pois parece que o alimento fica mais saboroso, mesmo que sua presença signifique a divisão do que é escasso. Mas isso não é levado em conta, pois ao sabor da amizade tudo se multiplica como o pão os peixes nas mãos de Jesus.

Estou aqui pensando que se o Ndalu viesse ao Brasil - ou já está aqui? - teríamos muito o que conversar. Em nossa meninice temos coisas em comum: Tang, manga com sal, músicas do Roberto Carlos na vitrola de alguém, Pantera Cor-de-rosa, Roque Santero, O Bem Amado, Sinhá Moça, Vereda Tropical. Até penso que seria possível discutirmos sobre aculturação, cultura e sua aquisição e/ou imposição. Não que tang e novelas seja cultura, mas creio ser este o ponto de partida.

Entretanto como o narrador faz parte "apenas" da sua "imaginação", prefiro voltar a falar sobre o mundo infantil. Ah, sabe aquela televisão colorida da tua estória? O meu vizinho, que era dono de um cinema, também tinha uma. Que coisa mágica! Aliás, tudo na casa de um vizinho ou parente sempre tem algo que nos prende. Falando em casa de tio ou tia...Sempre temos um que derrama litros de amor e mimos sobre nós. Cuidam da gente como os pais, mas é como se fosse um amigo da nossa idade.

Camarada Ondjaki, seu livro é esculú! Nele a vida ganha matizes variados, são tantas cores que mais se parece com arco-íris. E tem muito para se observar, como por exemplo, como a criança lida com a morte. Com as mudanças do corpo. Com as determinações dos adultos. Outra coisa, por que criança gosta tanto do universo político, e dentro dele dos comícios? Sobre isso fiquei pensativa. Eu confesso que amava ir a comícios e discutia política como se soubesse distinguir o bom do mau político, porém, ando meio decepcionada e aboli essa temática das minhas conversas. Você e Ndalu me permitiram tantas reflexões que não cabem aqui, mas que se somam a outros retalhos que unidos com linha dão forma a esta boneca de pano.

Ai que saudade senti daqueles da minha rua, meus vizinhos e amigos. Das brincadeiras, das "traquinagens"... Se pudéssemos domar o tempo, certamente eu o obrigaria a me levar para aquele mundo encantado em que eu vivia, para sentir aqueles cheiros, tocar aquelas criaturas divinas que lá moravam e que me fizeram tão feliz. Sair daquela rua foi muito dolorido como o foi também para o Ndalu. Ainda sinto o nó na garganta como no dia que de lá saí. Ché, lágrima teimosa que cisma em cair. Bem, acho melhor me despedir desta visita ás minhas memórias.

Ah, sim! Meus pais também ficam a jiboiar depois do almoço (risos).

Espero encontrá-lo em breve, em uma nova leitura....Até mais....


Abraços, Paula Ivony Laranjeira.


P.S.: Camba, não posso deixar de agradecer por me aproximar um pouco mais do teu país, da literatura africana e de alguns elementos linguísticos que encontrei no texto. Já havia encontrado esta característica em outros textos africanos e até já entendi o porquê. Falamos sobre isso em outra ocasião.




Sobre o autor:

Ndalu de Almeida, mais conhecido por seu pseudônimo Ondjaki, nasceu em Luanda, em 1977. Prosador e poeta, também escreve para cinema e co-realizou um documentário sobre a cidade de Luanda (“Oxalá cresçam pitangas – histórias de Luanda”, 2006). É membro da União dos Escritores Angolanos e da Associação Protectora do Anonimato dos Gambuzinos. Alguns livros seus foram traduzidos para francês, espanhol, italiano, alemão, inglês, sérvio, sueco e chinês.

Foi laureado pelo Grande Prêmio de Conto Camilo Castelo Branco 2007, pelo seu livro Os da Minha Rua. Recebeu, na Etiópia, o prêmio Grinzane por melhor escritor africano de 2008.

LIVROS

Actu Sanguíneu" (poesia, 2000)

"Bom Dia Camaradas" (romance, 2001)

"Momentos de Aqui" (contos, 2001)

"O Assobiador" (novela, 2002)

"Há prendisajens com o xão" (poesia, 2002)

"Quantas Madrugadas Tem a Noite" (romance, 2004)

Ynari: a menina das cinco tranças” (infantil, 2004)

E se amanhã o medo” (contos, 2005)

Os da minha rua” (estórias, 2007)

AvóDezanove e o segredo do soviético” (romance, 2008)

O leão e o coelho saltitão” (infantil, 2008)

"Materiais para a confecção de um espanador de tristezas" (poesia, 2009)

Os vivos, o morto e o peixe-frito” (teatro, 2009 - Ed. especial, BRASIL)

O voo do Golfinho” (infantil, 2009)


*Alguns termos fazem parte do livro e sua tradução acompanham o glossário.


esculú: Muito bom

Ché: interjeição de espanto ou júbilo

camba: amigo, companheiro

jiboiar: estar sonolento ou ocioso

mô: meu


Trechos de seus livros podem ser lidos no site:

http://www.kazukuta.com/ondjaki/ondjaki.html



7 comentários:

Leca disse...

Paula...
esse livro fala de algo que conheço bem...
pelo li no seu post..."Se essa rua...se arua fosse minha...eu mandava, eu mandava ladrilhar...com pedrinhas de brilhante para o meu amor passar"
Beijos e gentilezas
Leca

Taddeu Vargas disse...

Olá Paula! Muito interessante o texto sobre Ondjaki. Seu blog é muito interessante! Parabéns!
Adorei vir aqui. Bom final de domingo.
Abraço forte.

Lindy disse...

Eita, se curiosidade matasse...vc já teria me assassinado!!!
Logo, logo passo aí na sua rua, adentro sua casa e invado sua biblioteca para conhecer mais uma preciosidade livresca: "Os da minha rua".
E depois conversamos sobre!!!
Bjs

Pedro Luso disse...

Paula,

Eis aí um escritor africano, de Luanda, que estou conhecendo por meio deste teu belo texto.

Não terá sido Ondjaki que participou daquela mostra de livros em Parati, há uns dois anos ou mais?

Abraços,
Pedro.

Paula Laranjeira disse...

Leca, o livro traz muito das vivências da infância. É uma delícia!

Tadeu, obrigada pela visita. Volte sempre para ajudar nesta costura.

Lindy, a casa é sua! E a "biblioteca", aquela pobre prateleira quase vazia, está sempre à sua espera.

Pedro, Vamos trocando figurinhas então. Tenho outros nomes da literatura africana que pretendo trazer aqui. E de fato o Ondjaki esteve em Paraty no ano de 2006. Ele é bem conhecido no meio universitário.

Leonardo Villa-Forte disse...

Legal o seu blog, Paula. Cheio de boa informação e conteúdo. As entrevistas estão ótimas. Gosto muito deste livro do Ondjaki, "Os da minha rua", consegue realmente nos levar à infância, apesar de falar de uma infância totalmente particular. um abraço.
Leonardo Villa-Forte

ErikaH Azzevedo disse...

Paula...nunca me ocorreu isso de escrever pra um autor de um livro...que mágico isso menina...eu que sempre gostei dos blogs por achar nos aproximar mais do autor, fizeste tu esse sentir , de tudo a tua linguagem de aproximação. Gostei imensamente.
De todos os livros o que mais me curiou em ler foi ynari: a menina das cinco tranças...adoro literatura infantil, sabe...vou ver se acho algum ebook dele...li o inicio no site que deixaste e já abriu-me o apetite,

Teu blog é de interesse publico menina...muito boas dicas tu distribues.

Bjos e desejos de bom domingo

Erikah