9 de maio de 2010

Aleilton Fonseca: entre a memória e o imaginário / Entrevista


Por: Paula Ivony Laranjeira de Souza



Trecho da entrevista realizada em 2008 (para trabalho de TCC) com Aleilton Fonseca, que além de poeta, contista, romancista e membro da Academia Baiana de Letras, é professor-doutor na Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs). Numa conversa significativa, o olhar fonsequiano sobre a literatura e as experiências cotidianas guardadas na memória, alimento do seu fazer literário. Após esta entrevista, é possível entender que o sujeito de que fala em seus textos faz parte de suas vivências – reais ou imaginárias. Personagens estes que também se configuram em sujeitos das nossas vivências.

1. Você nasceu no interior, mais precisamente Firmino Alves. Como era sua vida nesta e/ou em outras cidades do interior que já tenha morado?

R- Passei apenas a primeira infância em Firmino Alves. Quando tinha 4 anos de idade, minha família se mudou para Ilhéus. Lembro-me da paisagem rural, as roças de gado, de cacau e as casas de farinha, rios, plantações – e lembro de cenas cotidianas do centro da pequena cidade de Firmino Alves, que emancipou em 1960.

2. Elas contribuíram de alguma forma para a criação do espaço ficcional em seus contos? De que forma?

R – Creio que sim; todas as experiências acumulam-se como um saber que se manifesta naquilo que escrevemos. Toda obra literária tem um lastro na vivência e na imaginação. Esses saberes se manifestam nos temas, na configuração dos personagens, nos valores que são acionados nas tramas dos contos.

3. Ao ler seus contos nos deparamos com dois temas: a memória e a morte. Em entrevista a José Inácio V. de Melo, você fala sobre o porquê da temática morte, mas e a memória, estaria relacionada ao “Boom da memória” das gerações pós-guerra? Ou tem outro motivo?

R – A memória com que trabalho não é datada; ela é intrínseca ao ser humano como um material que constitui um saber do vivido, do intuído e do imaginado. A memória de nosso viver cotidiano se constitui como uma marca pessoal; cada indivíduo possui essa memória, essa consciência de si, dos outros e do mundo, da existência, da vida e dos saberes. Eu me utilizo dessa memória e a reconfiguro através da imaginação para inventar personagens e situações ficcionais como simulacro da realidade. Por isso, minha ficção assemelha-se a vivências reais.

4. Sobre seu livro O desterro dos mortos, como você o define?

R – Trata-se de um livro em que a ficção se torna uma forma de compreender o sentido das perdas e resolver seus vazios através das epifanias do cotidiano. Onde há vazio, na verdade manifesta-se algo que ainda não percebemos. Na dialética da vida, nenhuma perda é vazio total, pois inaugura a possibilidade do que vem a ser em lugar do que se perdeu. O livro mostra isso: as perdas são momentos de descobertas e de crescimento.

5. O conceito de mimesis é, para a compreensão da Poética de Aristóteles, um termo chave que sustenta suas considerações a respeito da Arte poética; termo este que designa, em sua acepção mais geral, imitação. Como você relacionaria O desterro dos mortos e a mimese?

R- Acredito na literatura como “lições de vida”, ou seja, como simulacro de uma realidade possível, porém não real e sim imaginada, que guarda verossimilhança com a vida e se torna uma forma de vivência vicária. Nesse sentido, adoto o princípio aristotélico de que a literatura é verossimilhança e catarse. O desterro dos mortos é isso: catarse e verossimilhança, pois a imaginação recria uma realidade possível, como forma de atingir os afetos, os sentimentos do leitor, levando-o a vivenciar momentos de catarse e reflexão.

6. Ao entrar na universidade de todas as descobertas que fiz, a mais preciosa foi a de que a literatura não era algo dado e acabado. No entanto, muitas pessoas não têm acesso à universidade e infelizmente acabam não conhecendo o lado “vivo” da literatura. Muitos não têm acesso às novas produções literárias. Em sua opinião, o que contribui para isso?

R – A cultura ocidental tende a sacralizar as obras e os autores, tornando-os referências distantes do cotidiano das pessoas. A literatura deve ser vista como um processo em aberto, pois o sentido último de cada obra é dado, revelado e renovado a cada leitura. Todo leitor é autor, no ato da leitura, pois ele instaura os sentidos que se atualizam em sua leitura. O texto pode ser retomado, reescrito, reelaborado, pois se oferece a um processo contínuo de produção de sentidos. Todos deveriam poder vivenciar a literatura de uma perspectiva de “dentro”, como leitor/re-escritor. Isso tornaria a literatura uma prática mais coletiva e mais próxima de todos.

7. O que se percebe é que você sempre foi muito atuante no que se refere a literatura: movimentos literário, revistas, poesias, prosa, crítica literária. Como é ser um escritor nesse país e/ou na Bahia?

R – Muito difícil. Na Bahia um autor publica dez livros, os jornais noticiam todos, e nem assim ele se torna conhecido e respeitado como escritor. Nosso estado ainda não assimilou a literatura e o escritor como elementos da cultura e da economia que valem a pena como investimento simbólico e econômico. Não se promovem os escritores no sistema de ensino, não se promove o livro como bem de consumo importante e indispensável à formação integral do cidadão. Tudo que se faz aqui é muito pouco e sem perspectiva de continuidade e de consistência. A Bahia precisa de uma política de educação para a leitura, uma campanha de valorização do livro para consumo cotidiano.


Abaixo lista de livros de poesia, ensaio, contos e romances do referido autor:

1. Movimento de Sondagem. 1981.

2. O espelho da consciência. 1984.

3. Teoria particular (mas nem tanto) do poema — ou poética feita em casa. 1994.

4. Enredo romântico, música ao fundo. (ensaio). 1996.

5. Oitenta: poesia e prosa. (org. Aleilton Fonseca e Carlos Ribeiro)1996.

6. Jaú dos bois e outros contos. 1997.

7. Rotas e imagens: literatura e outras viagens. (Org. Aleilton Fonseca e Rubens Alves Pereira) 2000.

8. O desterro dos mortos (contos) 2001.

9. O canto de Alvorada (contos). 2003.

10. O triunfo de Sosígenes Costa. (Org. Cyro de Mattos e Aleilton Fonseca). 2004.

11. As formas do barro & outros poemas. 2006.

12. Nhô Guimarães (romance). 2006.

13. Todas as casas (contos, livro coletivo). 2007.

14. Les marques du feu et autres nouvelles de Bahia. (Tradução de Dominique Stoenesco).

2008.

15. Guimarães Rosa, écrivain brésilien centenaire. 2008.

16. O olhar de Castro Alves. (org.). 2008.

17. O pêndulo de Euclides (romance). 2009.


3 comentários:

b disse...

Nota 10 - pros dois.

Pedro Luso disse...

Aleilton Fonseca, é um escritor que não conhecia; não sei se encontrarei livros dele aqui em Porto Alegre; vou tentar.

É importante essa troca de informações, Paula; essa sua postagem está muito boa, parabéns.

Bjs.
Pedro.

Paula Laranjeira disse...

Obrigada, B.


Pedro, vou torcer para que encontre. De fato, a troca de informações nos enriquece bastante. Tenho aprendido muito em seu blog, o Panorama.