15 de abril de 2010

O Pequeno Príncipe me disse



Dias atrás ganhei do amigo Clédson um lindo presente, o livro O Pequeno Príncipe me disse, organizado por Sheila Dryzun. Nele alguns leitores, todos conhecidos pelo trabalho que desenvolvem nas artes, em outras áreas do conhecimento ou do trabalho que desenvolvem em projetos sociais deixam suas impressões relacionadas à infância e ao livro O Pequeno Príncipe. O mais interessante é que nas últimas páginas o leitor também é convidado a deixar ali suas impressões sobre o Pequeno Príncipe e as lembranças de infância.

Este amigo supra citado parece saber o que vai na alma da gente. Certa vez, me disse que tinha intuições, disso já não duvido. Nas duas últimas semanas tenho pensado em uma "pessoinha" linda que encantou minha vida: minha vó.

Bem, a pedido do amigo que a todo custo quer me tornar aviadora, segue uma das muitas lembranças da minha infância:


“Toda pessoa grande foi criança um dia. Mas poucos se lembram disso” Saint-Exupéry


A sua benção madrinha. Esta era a mágica senha para adentrar no mundo da minha vó. Depois deste rito vinha o sorriso-sol que iluminava a todos; vinha algo para comer e beber, marca registrada do seu amor e caridade; vinha as histórias de família e a visita a fotos antigas dos nossos parentes; vinha a história do nome Flor de Maria, que ela jurava ser o dela, verdade que cri por muitos anos até descobrir ser ela apenas e simplesmente Maria Francisca. Mas era tão bom sentir em suas palavras o orgulho de ter o nome da virgem somado ao flor. Era como se isso a tornasse parte dos seres divinos; vinha a viagem através do imaginário pelas formas das nuvens; vinham as rezas e a transmissão oral das verdades que ela jurava estar na Bíblia, as quais descobri ser umas verdadeiras, mas graças a Deus que outras faziam parte do imaginário popular.

Lembro-me do medo que sentia quando ela falava da maneira mais natural possível sobre o fim do mundo. Sentávamos, alguns primos e eu, ao seu redor, ávidos para comungar do seu conhecimento, mesmo sendo ela analfabeta. Por várias vezes, creio que depois de alguma “diabrura” nossa, ela nos falava de Deus, da criação do mundo, do dilúvio e do conteúdo do livro do Apocalipse, no qual segundo ela falava de como o mundo iria acabar e qual a data. Ela dizia: “Dois mil não interará. É o fim, tá escrito e deixado por Deus”. Eu ficava aterrorizada. E pensava em tudo que iria fazer até lá: quantos anos teria, em que série estaria, trabalhando em que, casada, com filhos... Por esta previsão passei alguns anos da minha infância a espera do fim dos tempos. Ficava muito triste por pensar em morrer jovem. E o pior, morrer queimada, pois ela dizia que “na primeira vez Deus destruiu o mundo com água, e desta vez seria com fogo”. Minha vó era uma sábia, e nunca duvidei de suas palavras, mas felizmente ainda estou aqui para contar esta história.

Bem, hoje troquei o Deus que castiga e destrói por um Deus que ama.

Sou uma adulta, graças aos estudos, meio racional. Mas graças a minha vó, a criança ingênua e crédula é metade de mim. E esta metade ainda traz muitas memórias da super vó: seu cheiro de alfazema, seu prazer ao beber coca-cola, o gosto do arroz com mandioca e abóbora cozidos na mesma panela (que nunca gostei), seu amor ao alimentar as lagartixas e os gatos, conversando com ambos, sua paixão pelas rosas...

Nunca deixo de visitar minhas lembranças de gente pequena, mas ao me deparar com este livro pude visitar as minhas e as de outros que também já foram crianças. Minha vozinha é uma das doces lembranças que revigoram esta alma, talvez seja porque muito em “Flor de Maria” se assemelha ao Pequeno Príncipe: duas crianças crédulas que a muitos cativaram.


* Explicando a foto:


Ao fundo a casa da minha vó na comunidade Gatos, zona rural do município. A pequena tampando os olhos e com uma vara na mão sou eu que por detestar tirar fotos queria matar o fotógrafo...Claro que ele não desistia e tirava assim mesmo. Mas eu também nunca desistia, e em outra foto não exposta estou com uma pedra para atirar nele. KKKKKKKKKK...Hoje os fotógrafos não correm mais este risco!




11 comentários:

ju rigoni disse...

Que coisa mais linda! Como é bom revisitar a infância, especialmente quando se tem tão belas lembranças. E avó é mesmo tudo de bom. Quanta saudade eu tenho da minha... E espero que minha neta, um dia, também lembre-se de mim com carinho.

Ler seu post me deixou com muita vontade de ler o livro.

Bjs e inté!

Lindy disse...

Ei, eu já conheço esta história das ftos. Sabe o q descobri estes dias, fazendo a revista de Pessoa, que ele também odiava que tirassem fotografias dele. Rsrs...curioso, né?!

Toda vez que leio algo que vc escreve sobre sua vó fico aqui remoendo de inveja por, apesar de amar muito minha vózinha, não conseguir escrever nada sobre ela. Mas, me contento pois sei que é por enquanto...

Bjs

b disse...

Das avós, as referências são muito mais fortes - são como magas a alimentar de estrelinhas a infância.
E você, que com doçura reverencia a ancestralidade, pode sim, voar...

Dolores Oliveira disse...

Mas que menininha sapequinha! (da foto) e ainda continua assim né? Em vez de galhinho, usa a imaginação e consegue espantar tédio, medos, enfim, recria, reinventa. Voa, voa fadinha.
Beijos.

Dolores Oliveira disse...

Mas que menininha sapeca! (a da foto)Agora ao invés de galhinho espanta a tristeza, os medos, o tédio, com muita imaginação! Bjs

Nilson Vellazquez disse...

E viva o Pequeno Príncipe.

Léo Metallica disse...

Você nesta foto está igualzinho ao pequeno príncipe. rsrs... só roupa de príncipe que ele usa.

Quanto a relembrar os momentos da infância, tu me fez lembrar da Drika, uma amiga blogueira que também conta suas histórias fantásticas e sobretudo uma casa dos avós no campo.

Nostalgico com certeza.

Direto do Rio.
Beijão.

Clédson Miranda disse...

Olá, Paulinha,

Que bom que esta memória evocada veio à tona... e sinto-me feliz porque ela veio partilhada conosco, os seus leitores!

Não tive a sorte de ter uma vó contadora de histórias; a minha era mulher da lida na roça, de vida muito agreste, de mãos calejadas e acabou seus dias de vida como uma pessoa amarga, ranzinza e infeliz. Nunca experimentei de perto a ternura da figura bimaterna da avó. Eis por que lhe pedi que nos presenteasse com a sua vivência!

As histórias de fim do mundo ficavam por conta do meu pai, hoje um senhor já octogenário, de cuja força e autoridade sempre tive respeito, pois já criança queria insistentemente a sua aceitação. O respeito e o medo eram uma minha forma de lhe pedir um pouco de amor e proteção paternos, que só vi de perto algumas poucas vezes... esse negócio de amar não é coisa de homem... seria muito eu desejar isso vindo do meu pai!

Minha mãe repetiu a mesma história trágica da minha avó e hoje vive solitária, isolada e triste...

Eu, andarilho das idéias, vivo vagabundeando pela existência, intuindo cada segundo que se perde e tentando insana e desesperadamente valorizar o tempo que me consome de forma implacável e irresoluta... ecce homo!

Em minha caminhada, alguns amigos já estão com os pés calejados como os meus, pois sempre estão junto a mim: o Nietzsche (andarilho sem sombra), o Pessoa (em todas as suas personas!), a Florbela (bela flor!), a Clarice (profunda e obscura!), o Bachelard (do dia e da noite!), a Adélia Prado (mineira mulher mãe!), o Rubem Alves (mineiro também)...

Tenho andado distante deste mundo de blogs, eis por que demorei em comentar. Como já houvera lhe dito antes, 2009 morreu levando um pouco de mim... ando ainda em estado tumular... os meus blogs dão prova disso! Mas, sempre que eu puder, passarei aqui para dialogar com as suas idéias.

Beijo enorme no coração,
Clédson

P.S.: Adorei a foto da pequena princesa... ai as horas, o tempo, a história... as memórias!

Pedro Luso disse...

Paula,

Esse seu excelente texto fez com que eu desse pulo até minha infância, já que também eu ouvia histórias como a que sua vó lhe contava.

Menino, sentia medo das previsões dos mais velhos: o mundo vai acabar...Desta vez será o fogo...

Abraços,
Pedro.

Malu disse...

Menina, O Pequenino Príncipe diz tanto a todos e sempre tem algo por dizer,principalmente ao nosso coração.
Seja bem vinda ao (IN) PERCEPÇÕES, que é uma idealização minha, mas só terá sucesso e longa vida com a ajuda de todos.
Grande beijinho

Paula Laranjeira disse...

Ju, realmente é muito bom visitar a infância. Não sei o porquê, mas tenho ido lá muito nos últimos tempos e sempre via leitura.

Lindy, Você certamente irá escrever coisas lindas sobre sua vó, pois tudo o que diz dela reflete seu amor e carinho por ela, que mais do vó é tamb mãe.

B, as avós são seres mágicos mesmo, diria quase encantadas, seja na vida ou depois dela.

Dolores querida, voe comigo!

Nilson, Viva!

Léo, já conheci o blog da Drika, uma delicia! E até voltei a brincar de casinha com ela...rsrs

Clédson, Deus, o destino, o acaso, ou que nome queira dar, consegue realizar coisas estranhas e maravilhosas. Nosso encontro na vida foi isso: estranho e maravilhoso. Você tem sido o embalo dos meus sonhos, um ponto para repensar as coisas ( e os politicos kkk), um bobo a enviar suas piadas, um exemplo de humildade e um poço amizade. Bendito seja quem proporcionou nosso encontro.

Pedro, creio que essse negócio de fim do mundo faz parte da infância de muita gente...Nossas avós...e suas tranmissões!

malu, realmente ele sempre fala ao nosso coração.

bjs a todos