14 de janeiro de 2009

A narrativa: memórias de nossas vidas


Por: Paula Ivony Laranjeira


Perambulando entre o texto “O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov” de Walter Benjamin e o filme “Narradores de Javé” com direção de Eliane Caffé, entende-se o poder da narrativa e sua importância para a vida humana. Visto através do ato narrativo o homem transmite experiência e adquire sabedoria, que provém das experiências alheias e das próprias, mediante reflexão.

Em meados da década de 30, no século XX, Walter Benjamin lamentava a decadência e a quase extinção do ato de narrar, bem como a dificuldade das pessoas em relatar suas próprias experiências. Porém tal dificuldade se intensifica, em especial, no século XX e início do século XXI, graças à tecnologia e a falta de tempo, que gera a necessidade de experiências compactas, fato que atrofia a reflexão. Em contrapartida o filme “Narradores de Javé” destaca a narrativa e sua importância para a restauração da história de um povo e sua futura existência.

O filme começa de forma inusitada: um turista/forasteiro correndo para alcançar um barco que o conduzirá a algum lugar; tendo perdido a condução, senta-se em um bar a beira da praia; levanta-se, pede um copo de água de coco a uma velha, que por está lendo não lhes dá atenção; o filho da anciã a reclama e explica sua falta de atenção pelo recente interesse por aprender ler e escrever, o que para ele é “besteira”. Neste momento surge o narrador que vai relatar uma catástrofe ocorrida em sua extinta cidade porque os moradores não sabiam ler e escrever. A história segue com o narrador (antigo comerciante da cidade) rememorando parte de sua vida.

Um dos primeiros marcos da narrativa, é o fato da cidade “Javé das Almas” ter que ceder espaço à construção de uma barragem, que inundaria todo o vilarejo. Daí surge a necessidade de encontrar algo que impeça a destruição de um lugar cheio de histórias, tão desnecessário ao mundo, mas imprescindível a gente daquele lugarejo. A solução encontrada: buscar algo naquele povoado que o tornasse patrimônio cultural. O artifício usado foi sistematizar através da escrita as histórias daquele povo, suas lendas..., proezas existentes apenas na oralidade. Mas, quem iria escrever de ”forma cientifica” tantos relatos, já que os moradores do vilarejo não sabiam ler e escrever? Lembraram-se então do antigo funcionário do correio, que havia sido expulso da cidade porque inventou histórias falsas envolvendo todos os moradores, para não perder o emprego. A partir de então se deu inicio as várias narrativas.

Benjamin (1994), ressalta que a narrativa floresce no meio de artesãos, seja no campo, na cidade ou no mar, sendo assim uma forma artesanal de comunicação, e como tal contém a marca do narrador, no caso, iniciar a narrativa de forma inusitada. Mas quem é o narrado-primeiro do filme? O comerciante que relata o fim da sua cidade ou o turista/forasteiro que ouve a história e a torna um filme? A dúvida nasce ao ler Benjamin (1994, p. 205) em uma descrição sobre a narrativa leskoviana: “Leskov começa A fraude com uma descrição de uma viagem de trem, na qual ouviu de um companheiro de viagem os episódios que vai narrar”. Além disso, o autor apresenta adiante dois tipos arcaicos de narradores: o “camponês sedentário” e o “marinheiro comerciante”, os primeiros relatam histórias da própria vida e suas tradições; já o segundo grupo, as experiências adquiridas nas várias viagens que fazem e no intercâmbio com outros comerciantes. O filme utiliza o flash-back para apresentar as narrativas, levando o telespectador/leitor, as já citadas dúvidas: primeiro flash: o forasteiro/turista que apresenta o filme?... , seria o narrador estilo “marinheiro comerciante”; e o narrador da extinta cidade, seria apenas um “camponês sedentário”; e todos aqueles que vêem o filme seriam os aprendizes. Segundo flash: o “marinheiro comerciante”, seria o narrador que apresenta a extinção de sua cidade, e apesar de não saber ler/escrever, traria conhecimento das viagens que fazia à cidade vizinha, onde intercambiava experiências com outros comerciantes; seus aprendizes seriam o grupo de pessoas que se encontram no bar. Terceiro flash: os moradores da cidade ( “camponeses sedentários” ) que relatam suas experiências; seus aprendizes seriam os outros moradores e os futuros leitores de um livro que não fora escrito.

Benjamin em seu texto faz breve relato sobre o narrador e sua arte: como nasceu, qual a função, enfim suas especificidades. Segundo o autor as narrativas estão desaparecendo, especialmente, porque já não somos mais capazes de ouvir, internalizar e recontar as histórias que ouvimos. Dessa forma a comunicabilidade da experiência e a arte de narrar vai desaparecendo, como também se extingue a idéia de eternidade, pelo simples fato da morte já não ter mais um caráter exemplar. Atualmente a morte é solitária, pouco significativa, é finitude; enquanto outrora, era um momento que se reproduzia na consciência coletiva, sendo contado a várias gerações, para possíveis reflexões e exemplos retirados da vida do morto, vista assim, a morte exala sabedoria e confere a quem parte, certo grau de eternidade. O mesmo percurso fez a narrativa: era um ato coletivo, que sabiamente aconselhava através de histórias nascidas do povo, e que na modernidade cede lugar ao romance, originário de um individuo que pouco se importa com os exemplos,dessa maneira não recebe conselhos nem sabe dá-los.

No filme é possível perceber a constância da morte nas narrativas, bem como a pouca importância creditada às narrativas populares por quem detêm o “saber”, no caso o carteiro. Fato este reforçado na pós-modernidade pela estrema valorização da escrita, e seu poder de imortalidade. Dessa forma Benjamin ressalta que hoje a difusão da informação é responsável por tal declínio, para ele “somos pobres em histórias surpreendentes. A razão é que os fatos já nos chegam acompanhados de explicações. Em outras palavras: quase nada do que acontece está a serviço da narrativa, e quase tudo está a serviço da informação. Metade da arte narrativa está em evitar explicações.”

Tanto o filme quanto o texto nos faz perceber que estamos em defasagem não com as novas gerações, mas com as antigas, pois não temos a capacidade de entrar no mundo do fantástico, e nem mesmo no nosso mundo, para relatar experiências, dar conselhos àqueles que estão ao nosso lado, e nem de ouvir com sabedoria os que falam.

Por fim, Benjamin define o narrador como “figura entre o mestre e o sábio (...) Seu dom é poder contar sua vida; sua dignidade é contá-la inteira (...)pode recorrer ao acervo de toda uma vida (uma vida que não inclui apenas a própria experiência, mas em grande parte a experiência alheia)”. Tal definição nos faz lembrar nossos avós, que tão bem conseguem falar da própria vida, englobando à sua, a vida de outras pessoas; da mesma forma que Benjamin propõe falar de Leskov, e para isto conta com a ajuda de outras experiências; assim também acontece no filme, onde às experiências do narrador, são acrescentadas outras.

Assim sendo, não é possível dizer se, para esta análise, o filme foi enriquecido pelo artigo de Benjamin, ou o artigo pelo filme. Ambos se completam no entendimento teórico da arte de narrar.

Referencial bibliografico

(não disponível para esta publicação)

3 comentários:

Ademir Furtado disse...

Como é difícil fazer comentários no seu blog.
Esta é minha quarta tentativa
Ademir

Ademir Furtado disse...

Olá.Paula,
Este comentário era pra o outro texto, mas lá não consegui. desculpe se estou insistinto muito
Muito interessantes suas reflexões. Eu li "O Narrador" vários anos atrás, no curso de Letras, e vi o filme recentemente, e não me ocorreu fazer essa comparação. Notei a questão das narrativas intercaladas do filme.
Mas eu também obervo hoje que as pessoas não vivem mais experiências subjetivas autêncticas, e isso se manifesta na pobreza da linguagem.
As pessoas andam pela vida e aderem aos fatos sem questioná-los e sem contextualizá-los, sem estabelecer com esses fatos nenhuma ligação subjetiva. Simplesmente aceitam as formulações já existentes. A experência pessoal, assim, é nula. Por isso que na literatura de hoje, principalmente entre os iniciantes, há tanta coisa sem história, tantos contos anedóticos, em estilo de piadas, com final "engraçado". Ou então, o que é pior, a proliferação de "comédias da vida privada"
Por enquanto era isso, mas seria interessante continuar o papo
Ademir

Pils disse...

Olá Ademir,
concordo q haja muita coisa escrita q foge do interesse de muita gente, particularmente gosto de narrativas onde o narrador classico prevaleça, apesar de já ter lido outros tipos de escrita. Devemos esta atentos para o fato de q aliteratura, muitas vezes serve p apresentar a expressão social do momento em q é lançada. Tento crêr q tudo tem uma explicação plausivel. vale lembrar q na modernidade baudelaire fugio do estilo classico e inovou ao trazer novas concepções de realidade para o texto literario.
bem, vem trabalhando com um autor q pode te interessar, Aleilton Fonseca, ele está começando a ser lançado no cenario nacional, tem vários livros (poesia, contos e um romance)recomendo os de conto e o romance, estou lendo um de poesia , se tiver interesse depois me diga o q achou...
obrigada pela visita e pelo interesse....volte sempre