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13 de novembro de 2011

Guimarães Rosa - Correspondência

 Meus queridos amigos, como já disse em outras ocasiões, gosto muito de correspondências alheias. 
Creio que ao escrevermos uma carta colocamos dentro do envelope um pedacinho de nós mesmos e enviamos a um destinatário que supostamente depois de ler irá guardar em alguma gaveta ou caixa - espera-se sempre não ser rasgada, queimada ou jogada no lixo - esse pedaço de papel, o qual  nos leva em cada linha.  Há aqueles que beijam as cartas, abraçam, cheiram, olham e suspiram, há os que leem e choram, deixando lágrimas marcar o papel. Há muita emoção e vida dentro dos envelopes. Pois bem meus queridos, segue uma carta de Guimarães Rosa ao Pe. João Batista Boaventura.
Nesta carta, Guimarães fala de "O recado do morro", conto que  integra o livro Corpo de Baile,  de Guimarães Rosa. E como não poderia deixar de ser, temos a possibilidade de conhcer um pouquinho mais este autor que encanta milhares de leitores mundo à fora.


Segue abaixo a carta...













22 de fevereiro de 2011

O velho Graça e sua amada Heloisa

Como já disse em outras oportunidades, sou uma amante da correspondência alheia. Ao ler aquilo que o outro escreve entro num mundo real, em que o rementente e destinatário estão à mostra, revelando o que de fao são. Isso dentro do universo litarário é melhor ainda, pois podemos ter um contato mais íntimo como os autores que admiramos. Hoje uma carta de Graciliano Ramos àquela que se tornaria sua segunda esposa.


Heloísa,


Chegaram-me as duas linhas e meia que me escreveste. Pareceram-me feitas por uma senhora muito séria, muito séria! muito antiga, muito devota, dessas que deitam água benta na tinta.
Tanta gravidade, tanta medida, só vejo em documentos oficiais. Até sinto desejo de começar esta carta assim: "Exma.Sra.: tenho a honra de comunicar a V. Exa., etc".
Onze palavras! Imagino o que um indivíduo experimenta ao receber onze palavras frias da criatura que lhe tira o sono? Não imaginas. E sabes o que vem a ser isto de passar horas acordado, sonhando coisas absurdas? Não sabe. Pois eu te conto.
Sento-me à banca, levado por um velho hábito, olho com rancor uma folha de papel, que teima em tornar-se branca, penso que o Natal é uma festa deliciosa. Os bazares, a delegacia de polícia, a procissão de Nossa Senhora do Amparo... E depois o jogo dos disparates, excelente jogo. "Iaiá caiu no poço". Ora o poço! Quem caiu no poço fui eu.
Principio uma carta que devia ter escrito há três meses, não posso concluí-la. Fumo cigarros sem contar, olhando um livro aberto, que não leio. Dançam na minha cabeça uma chusma de idéias desencontradas. Entre elas, tenaz, surge a lembrança de uma criaturinha a quem eu disse aqui em casa, depois da prisão do vigário, nem sei que tolices.
Apaga-se a luz, deito-me. O sono anda longe. Que vieste fazer em Palmeira? Por que não te deixaste ficar onde estavas?
Não consigo dormir. O nordeste, lá fora, varre os telhados. Na escuridão vejo distintamente essa mancha que tens no olho direito e penso em certa conversa de cinco minutos, à janela do reverendo. Por que me falaste daquela forma? Desejei que o teto caísse e nos matasse a todos.
Andei criando fantasmas. Vi dentro de mim outra muito diferente da que encontrei naquele dia.
Por que me quisestes? Deram-te conselhos? Por que apareceste mudada em vinte e quatro horas? Eu te procurei porque endoideci por tua causa quando te vi pela primeira vez.
É necessário que isto acabe logo. Tenho raiva de ti, meu amor.
Fui visitar o Padre Macedo.
Falou-me de ti, mas o que me disse foi vago, confuso, diante de dez pessoas. É triste que, para ter notícias tuas, minha filha, eu as ouça em público. Foram minhas irmãs que me disseram o dia do teu aniversário e me deram teu endereço.
Tinha razão quando afirmaste que entre nós não havia nada. Muito me fazes sofrer.
É preciso que tenhas confiança em mim, que me escrevas cartas extensas, que me abras largamente as portas de tua alma.
Beijo-te as mãos, meu amor.
Recomendo-me aos teus, com especialidade a dona Lili, que vai ser minha sogra, diz ela. Acho-a boa demais para sogra.

Amo-te muito. Espero que ainda venhas a gostar de mim um pouco. Teu Graciliano.


Palmeira, 16 de janeiro de 1928.



Graciliano e Heloisa

11 de julho de 2010

Marques Rebelo: um novo encontro ou reencontro

Bahia – 2010

Querido Marques Rebelo,

Como anda este seu-nosso Rio de Janeiro? De 1930 para cá modificou muito, não é?

Sim, quero dizer que tenho em mãos dois dos seus livros: “A guerra está em nós” e “A estrela sobe”, ambos reeditado pela José Olympio editora. Excelente idéia essa reeditar toda a sua obra. Tem muita gente que precisa te descobrir, ou até redescobrir seu trabalho.

Posso dizer que você me era totalmente desconhecido, ates disso, não fosse o ano de 2008, quando seu nome passa por mim. Eu dava um curso de literatura e estudava o livro “História concisa da Literatura Brasileira”, de Alfredo Bosi, conheci um pouco de você e sua obra. Claro, de forma concisa! Mas julgo que até aí, só seu nome conhecia. No entanto, em 2009, você quis se apresentar a mim, e pelos caminhos da vida talvez, o seu filho, José Maria Dias da Cruz me encontrou num site de relacionamentos, e agora conversamos através de e-mails e MSN. Falamos sobre algumas coisas e entre elas, você. Dele ganhei os dois livros citados. Ele fala de você com muito entusiasmo e amor, vejo que é seu maior admirador.

Marques, percebi que você é um “cara” genial, mas anda um pouco engavetado. O José me disse que isso é obra de um advogado nada honesto que impediu a divulgação das tuas obras, além de usurpar dos seus filhos o que você os havia deixado por direito. É lamentável como os seres humanos conseguem ser mesquinhos e desprezíveis em alguns momentos. Mas bola pra frente, que a José Olympio e o José estão revertendo a situação.

Porém, minha intenção ao lhe enviar esta carta, é simplesmente falar do meu encantamento ao ler seus livros. Em “A guerra está em nós”(lançado em 1968 e reeditado em 2009), viajei pelo enredo, percorrendo o período ditatorial. Gostei muito de a escrita dar-se como em um diário, sendo narrado durante os anos de 1942, 1943 e 1944, numa sucessão de dias. Sempre gostei muito de tudo que se refere a este período. Então, imagine como saboreei descobrir a cada página o cotidiano daquela época. Vi que você brinca com o real dentro da ficção, e isso me deixou maravilhada. Ah, o Rio de Janeiro em meio à ditadura, o cerceamento da liberdade e a guerra mundial, ainda tinha ânimo para fazer o seu carnaval. Política, literatura, música e o dia-a-dia, elementos da memória brasileira, da sua memória, Marques, que nos permite também voltar no tempo, imaginar e também nos encantar e indignar com o momento histórico, com os tipos cariocas, brasileiros que vieram antes de nós. E antes, apenas vistos em filmes, livros de história, e ali em tuas páginas, eram reais, graças ao poder do imaginário.

Mas gostei mesmo foi de “A estrela sobe” (lançado em 1939 e reeditado em 2009). Talvez seja pelo fato de, junto do teu Rio de Janeiro, apresentar os dilemas vividos por uma mulher na década de 30. Sobre a mulher e sua luta neste período, Celi Pinto (2003, p. 33) alerta, “temos de ter em mente que essas manifestações ocupavam as franjas da sociedade. Ou seja, não se constituíam nos assuntos que pautavam as preocupações das elites políticas e culturais da época”. Mas vejo que isso não se aplica a você, pois trouxe uma mulher cheia de sonhos, que fez de tudo para conseguir a independência financeira, não seguir os passos da mãe – mãe, esposa e dona de casa. Você traz mulheres que trabalham (lavam, passam, cozinham, donas de hospedaria, cantoras de rádio, vendedoras, prostituas, operárias, etc.), que repele o amor verdadeiro e se entrega a “vida fácil” para possuir a liberdade. mas noto que você não deixa esta mulher “ao Deus dará”, solta, desamparada. Você a impede de ser apedrejada pelos leitores quando apresenta suas inquietações, seus dilemas, seus sonhos e a forma com que é/são enganada em sua inocência por falsos “amigos”. Lenilza, esta mulher que vive no mundo das cantoras de rádio me encantou, mas não é para menos, vistes o que dela falou Temístocles Linhares, pois bem, reproduzo aqui: “é figura incomparável e sua importância a coloca em primeiro plano no romance brasileiro de todos os tempo”. Marques, fiquei intrigada com uma coisa: Lenilza e Macabeia... “A estrela sobe” e “A hora da estrela” ... Marques Rebelo e Clarice Lispector...É possível haver aí alguma relação? Sei lá o motivo, mas pensei nestas duas personagens.

Acho que já estou ficando prolixa. Quando pego a caneta...Ou melhor, o teclado...

Marques, saiba que foi um prazer conhecê-lo.Até mais...



Fique bem...Abraços

Paula

Sobre o autor



Marques Rebelo (nome literário de Eddy Dias da Cruz), jornalista, contista, cronista, novelista e romancista, nasceu no Rio de Janeiro, em 6 de janeiro de 1907, e faleceu também nessa cidade em 26 de agosto de 1973.

Segundo ocupante da cadeira 9, que tem por patrono Gonçalves de Magalhães. Eleito a 10 de dezembro de 1964, na sucessão de Carlos Magalhães de Azeredo, só veio a tomar posse em 28 de maio de1965, recebido por Aurélio Buarque de Holanda.

Sobre ele: site da Academia Brasileira de Letras: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=142

Sobre ele artigo: "O Rio é o mundo:Marques Rebelo no seu centenáriodo" prof. Dr. Mário Luiz Frungillo: http://www.forumrio.uerj.br/documentos/revista_20-21/Cap-9-Mario_Frungillo.pdf

“A estrela sobe” virou filme em 1974, dirigido por Bruno Barreto e com roteiro baseado no livro homônimo de Marques Rebelo. Tendo Betty Faria no papel de Lenilza.

Obras

Romances

  • Marafa (1935)
  • A estrela sobe (1939)
  • O espelho partido
    • O trapicheiro (1959)
    • A mudança (1962)
    • A guerra está em nós (1968)

Novelas

  • O simples coronel Madureira (1967)

Livros de contos

  • Oscarina (1931)
  • Três caminhos (1933)
  • Stela me abriu a porta (1942)

Contos avulsos

  • Conto à la mode
  • Acudiram três cavaleiros
  • O bilhete (1966)

Teatro

  • Rua Alegre, 12 (1940)

Crônicas

  • Suíte nº 1 (1944)
  • Cenas da vida brasileira (1951)
  • Conversa do dia (1951, 1953, 1954)
  • Cortina de ferro (1956)
  • Correio europeu (1959)

Biografias

  • Vida e obra de Manuel Antônio de Almeida (1943)

3 de julho de 2010

Cartas...



Sempre gostei de enviar e receber cartas. A sensação da carta na mão faz disparar o coração. A alma tenta prever, sem sucesso, o que o envelope, ainda não aberto, guarda. Às vezes, o remetente pode prenunciar algo desconhecido, outras vezes, algo desejável, esperado. Mas agora, o e-mail, meio de correspondência mais rápido - ajuda a economizar papel, a poupar árvores, mas também, impede de sentir a fragrância que se esconde em algumas cartas, de perceber a lágrima caída que borra as letras, de tocar via imaginário a mão que escreveu a carta - toma conta das relações que vivem na distância. E agora o que acontecerá com as cartas?
Quando era criança perdia tempo mexendo numa caixa cheia de cartas e cartões que havia em minha casa. Lá meus irmãos guardavam cartas/cartões que recebiam de seus amores; meus pais depositavam os cartões que recebiam em datas especiais. Eu lia tudo. Tomava posse de tudo aquilo como se me pertencesse, mesmo nada se destinando a mim. Ainda tenho na alma o gosto daquele ato bisbilhoteiro. Era um prazer que tempos depois descobri ao ler alguns livros.
Quando minha família não mais recebeu as tais correspondência, visto que meus irmãos foram se casando, e os cartões à meus pais foram substituídos por "presentinhos", eu, enfim, comecei a sentir o gosto de receber cartas/cartões enviados por parentes, amigos e colegas. Trago todas guardadas para que um dia, alguém movido pela curiosidade, sinta o prazer da leitura de algo que não lhe é endereçado.
Imaginem então, como me sinto feliz quando descubro que alguns autores tem suas correspondências publicadas em livro. Senti aquele gostinho novamente. Um gostinho duplo, proporcionada pela leitura e pelas correspondências. Já que não acho interessante publicar aqui minhas correspondências, segue abaixo alguns trechos de cartas trocadas entre Dummond e pessoas ilustres e com anônimos:

ILUSTRES

De Drummond para Graciliano Ramos, 1945:

"Meu caro e grande Graciliano: Até o mais espinhosos dos amigos --ou dos críticos-- reconhecerá em 'Infância' a obra de arte que ela realmente é. Nada lhe falta, nada lhe sobra. A palavra justa exprimindo sempre uma realidade psicológica ou ambiente; a notação precisa; a dosagem sábia; a economia absoluta de efeitos, notações, recursos. Enfim, um desses livros que a gente desejaria ter tutano para escrever, e que lê com uma admiração misturada de raiva pelo pelo danado que conseguiu compô-la: raiva que é o maior louvor, tanto vem ela impregnada de entusiasmo e prazer. (...)"

De Drummond para Clarice Lispector, 1945:

"Clarice, querida: Ler ou reler você é sempre uma operação feliz: descobrem-se coisas, aprimora-se o conhecimento das descobertas. Senti isso percorrendo "De Corpo Inteiro"! e "Visão do Esplendor". Obrigado, amiga! O abraço, a admiração, o carinho do Drummond."

De Carlos Lacerda para Drummond, 1975:

[no Natal, Lacerda envia bilhete oferecendo um livro da Nova Fronteira, editora que criou] "Para Carlos Drummond de Andrade, que não gosta de mim mas certamente gosta de Fernando Pessoa e há de goastar do Otávio Araújo, a Nova Fronteira oferece, Natal de 75, Carlos Lacerda".


De Drummond para Lacerda, 1975:

"Agradeço-lhe vivamente, e à Nova Fronteira, o magnífico exemplar de 'Ode Marítima' de Fernando Pessoa, com que me distinguiram neste Natal. Realmente, é um fino objeto de arte, a que Otávio Araújo deu contribuição relevante, para maior glória do poeta. Parabéns à arte gráfica do nosso país. A afirmação de que 'não gosto de você' seria pelo menos exagerada, se não fosse, como é, totalmente errada. Ninguém é indiferente ao 'charmeur' fascinante que você é, e mesmo os que supõem detestá-lo, no fundo gostam de você. Gostam pelo avesso, mas gostam. Quanto a mim, tenho presente que fomos bons camaradas na luta perdida da ABDE, e que lhe dei o meu voto para Governador (voto de que não me arrependi, em face dos lances criativos do seu Governo). Apenas, discordei de posteriores atitudes políticas de você, o que é coisa comum na vida, e não afeta relacionamento pessoal. Certo?"

NEM TÃO ILUSTRES:

De Laudinor Brasil (Vitória da Conquista-BA) para Drummond, 1944:

"Com a presente, estou lhe enviando um soneto que escrevi, após a leitura do seu grande livro de admiráveis poemas - Poesias. Que tal? Presta? Não presta? Pouco importa. Tem para mim um sincero valor: --a intenção de rende ruma homenagem ao grande poeta que, ao lado, ou melhor, à frente de Manuel Bandeira, Jorge de Lima, Vinicius de Moraes e outros-- vem enriquecendo, com a cooperação de príncipe indiano, a poesia brasileira.

[ e vem o soneto]
Destino...
Como Carlos Drummond de Andrade, achei
Uma pedra tambem no meu caminho.
E, porque a vi, a meditar sozinho
Os segredos da vida desvendei.

Vi que o Destino é sempre o eterno rei,
Tiranico, sarcástico, escarninho.
E vi, morrendo, à voz do rei mesquinho,
As ilusões mais doces que eu sonhei

[o poema e a carta continuam] (...)"

De Drummond para Laudionor Brasil, 1944:

"Recebi há dias sua carta e o soneto que a acompanha. Muito obrigado. Mas confesso-lhe que me surpreendi ao ver surgir, ao lado de minha modesta e atacada 'Pedra no caminho', um soneto que lhe interpreta e desenvolve o sentido. Porque a referida pedra --vou usar de toda a franqueza-- não tem sentido algum, a não ser o que lhe dão as pessoas que a atacam e com ela se irritam. É uma simples, uma pobre pedra, como tantas que há por aí, nada mais. O poema (se assim se pode chamar) em que ela aparece não pretende expor nenhum fato de ordem moral, psicológica ou filosófica. Quer somente dizer o que está escrito nele, a saber, que havia uma pedra no meio do caminho, e que essa circunstância me ficou gravada na memória. Como vê, é muito pouco, é mesmo quase nada, mas é o que há. Suas palavras a respeito de meu livro são muito generosas. Mas acho que não têm razão de ser. O melhor é nós contemporâneos não nos julgarmos uns aos outros. Já é tão difícil e dá margem a tantos erros julgarmos os antigos! Ninguém sabe o que vai ficar do que se escreve em nosso tempo.Provavelmente ficará o que hoje não agrada ou não é percebido. Tudo é muito nebuloso e discutível, no presente. E quase nada resiste ao tempo. Já não falo na posteridade: falo em cinco, dez anos mais tarde...

Desculpe se estas palavras lhe pareceram mal humoradas, pois ralmente não o são. Minha intenção é o menos irritante possível. Quis ser sincero com um patrício distante, que me escreveu sobre poesia e que revela, talvez, um excessivo entusiasmo, de que eu não participo. Agrada-me saber que em Conquista alguém se preocupa com versos e se lembra de escrever a outra pessoa que também se preocupa com eles. Mas não convém admirar demais: e eu lhe juro que nem eu nem nenhum dos poetas citados em sua carta somos príncipes indianos, que enriquecem a poesia brasileira.

Cumprimenta-o com simpatia cordial, contente por havê-lo conhecido,

De Drummond para Yola Azevedo (São João da Boa Vista-SP), 1982:

"Na leitura observei pequeninas coisas, que lhe transmito pelo meu vezo de reparar em coisas pequeninas e dar-lhes importância formal. A primeira não será assim tão mínima, por isso lá vai de saída. Eu acho que o problema que se apresenta ao escritor novo, atualmente, é estabelecer certo equilíbrio natural entre linguagem escrita e linguagem falada. Ele precisa usar o vocabulário e a construção do dia, mas deve utilizar as expressões antigas e elegantes que constituem o tesouro da literatura, representado, digamos, por um Machado de Assis. Na boca de uma personagem, cabem todas as gírias e modismos referentes ao seu meio social, mas já na escrita do narrador eles devem ser evitados. Dizer por exemplo que uma sucessão de mortes "é incrível", está bem quando é a pessoa imaginária quem fala, mas para o escritor nada é incrível, inenarrável, assombroso. Os adjetivos desse tipo são uma fuga à obrigação de definir o fato ou a sensação. Uma sucessão de mortes, brutal e imprevista que seja, pode ser contada também de maneira brusca e seca: "Perdeu o irmão num acidente, o pai de infarto, a mãe de trombose. Em três meses." (Ou cinco, ou seis). Ou coisa parecida. Já o leitor, vendo isso, tem o direito de dizer: "É incrível!". (...)

Acho bom, também, evitar expressões esteriotipadas, como "divino milagre" (todo milagre é divino), "fazer das tripas coração", "mergulhar num mar de tristeza", que são lugares-comuns. Deixar de lado, igualmente, citações desnecessárias, como a do inferno de Dante, que se popularizou e é usada por todo mundo que nunca se aproximou da "Divina Comédia". Citação é ótima quando totalmente inesperada. (...)

Repare como a palavra "muito" nem sempre indica muito, mesmo. Às vezes "senti falta" diz mais do que "senti muita falta". O substantivo bem empregado é sempre forte em expressividade, e não raro dispensa a muleta do adjetivo.

Como você vê, são coisinhas, pinçadas pela mania que cultivo, e que você acatará ou não, sem o menor constrangimento. Por favor, não me tome por um censor literário, crítico ou coisa que o valha; tenho horrora essas coisas, mesmo porque não tenho formação especializada para criticar, e confio muito na autocrítica do autor, que se desenvolve com o tempo até tornar-se afiadíssima. Se me permiti apontar essas coisicas foi porque confio em sua força e compreensão. Valeu? (...)"

De Drummond para Edmílson Caminha (Fortaleza-CE):

1982: "Haverá nada mais fino, obsequioso e encantador do que um casal cearense? Vocês dois nos maravilharam com o belíssimo presente do artesanato local, que eu chamarei, com justiça, de objetos de arte. (...)".

1983: "Sua amizade é das que não falham _espécie preciosa e reconfortante. Envelhecer não é assim tão difícil quando se conta com esse apoio moral. Obrigado pelas palavras de carinho e pelo inigualável doce de caju, uma das glórias cearenses que não me canso de celebrar... e de degustar. (...)"

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), possui 1.812 correspondentes registrados no arquivo do poeta na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio.


O POEMA DA BAHIA QUE NÃO FOI ESCRITO

-Carlos Drummond de Andrade-



Um dia – faz muito tempo, muito tempo –
achei que era imperativo fazer um poema sobre a Bahia,
mãe de nós todos, amante crespa de nós todos.
Mas eu nunca tinha visto, sentido, pisado, dormido, amado a Bahia.
Ela era para mim um desenho no atlas,
onde nomes brincavam de me chamar:
Boninal,
Gentio do Ouro,
Palmas do Monte Alto,
Quijingue,
Xiquexique,
Andorinha.
– Vem... me diziam os nomes, ora doces.
– Vem! ora enérgicos ordenavam
Não fui.
Deixei fugir a minha mocidade,
deixei passar o espírito de viagem
sem o qual é vão percorrer as sete partidas do mundo.
Ou por outra, comecei a viajar por dentro, à minha maneira.

Ainda carece fazer poema sobre a Bahia?
Não.

A Bahia ficou sendo para mim
poema natural
respirável
bebível
comível
sem necessidade de fonemas.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Amar se aprende amando. Rio de Janeiro: Record.


15 de maio de 2010

os da minha rua, Ondjaki

"senti que despedir-me da minha casa era despedir-me dos meus pais, das minhas irmãs, da avó e era despedir-me de todos os outros: os da minha rua, senti que rua não era um conjunto de casas mas uma multidão de abraços, a minha rua, que sempre se chamou Fernão Mendes Pinto, nesse dia ficou espremida numa só palavra que quase me doía na boca se eu falasse com palavras de dizer: infância." ONDJAKI. Os da minha rua.2 ed, Portugal: Leya Bis 2009, p.113.


Camarada Ondjaki,


Como anda o continente africano em tempos de Copa do mundo? Presumo que mesmo sendo realizada na África do Sul, os outros países devem estar contagiados. Aqui no Brasil época de Copa não dá outro assunto, mesmo sendo realizada em outro continente.

Entretanto prefiro mudar de assunto, falar de algo que gosto mais, como por exemplo: Literatura. Neste momento tenho em mãos o seu livro Os da minha rua, presente de uma amiga virtual de Portugal, a São. Antes de mais nada, lembro que para esta leitura foi necessário o encontro de três continentes e três países diferentes falando a mesma língua: Portugal, Angola e Brasil. Sei que para falarmos a mesma língua temos um processo histórico dolorido, impositivo, segregador. No entanto, desculpe meu egoísmo, mas sem os desacertos da daquele tempo eu não estaria lendo seu belo texto e nem estaria ele me ajudando a repensar o pensamento que por tanto tempo nos fora imposto: a supremacia de uns em relação a outros, fato que considero intolerável.

Mô camba, na verdade você não era nenhum estranho para mim, pois já havia lido algo da sua produção em seu site e na faculdade, mas foram textos fragmentados, nada de livro completo. O que me conferia uma visão panorâmica do seu trabalho. Claro, que o fato de ler um livro também não me faz conhecedora de todo o seu trabalho, mas abre portas para buscar mais pelo gosto despertado pelo primeiro livro. E foi com essa leitura que descobri mundos parecidos a nos unir, visto que o que encontrei na narrativa, denuncia o que você traz em seu imaginário. Creio que um pouco disso vem das suas vivências ou colhido da experiência alheia.

Sabe Ondjaki, observei tanta coisa em comum entre as crianças brasileiras e angolanas. Criança deve ser uma espécie universal com tempo determinado de sobrevivência, depois vira adulto e cada um vai ganhando a forma do lugar social que ocupa. Por que não crescemos e continuamos com a mesma pureza no olhar que nos faz observar o mundo de uma forma mágica?

Ao começar a leitura voltei à casa em que nasci e morei até os dezessete anos, na rua em que vivi os anos mais felizes. Felizes porque entre eles está a criança que tanta saudade deixou em mim. Parece que esta sensação também é compartilhada por Ndalu, o narrador-personagem que vai partilhando suas aventuras e seu olhar sobre o mundo, as pessoas e situações desde a infância até a adolescência.

É engraçado como na infância sempre temos um amigo que gosta de fazer alguma refeição em nossa casa, ou o inverso. Mas isso é bom, pois parece que o alimento fica mais saboroso, mesmo que sua presença signifique a divisão do que é escasso. Mas isso não é levado em conta, pois ao sabor da amizade tudo se multiplica como o pão os peixes nas mãos de Jesus.

Estou aqui pensando que se o Ndalu viesse ao Brasil - ou já está aqui? - teríamos muito o que conversar. Em nossa meninice temos coisas em comum: Tang, manga com sal, músicas do Roberto Carlos na vitrola de alguém, Pantera Cor-de-rosa, Roque Santero, O Bem Amado, Sinhá Moça, Vereda Tropical. Até penso que seria possível discutirmos sobre aculturação, cultura e sua aquisição e/ou imposição. Não que tang e novelas seja cultura, mas creio ser este o ponto de partida.

Entretanto como o narrador faz parte "apenas" da sua "imaginação", prefiro voltar a falar sobre o mundo infantil. Ah, sabe aquela televisão colorida da tua estória? O meu vizinho, que era dono de um cinema, também tinha uma. Que coisa mágica! Aliás, tudo na casa de um vizinho ou parente sempre tem algo que nos prende. Falando em casa de tio ou tia...Sempre temos um que derrama litros de amor e mimos sobre nós. Cuidam da gente como os pais, mas é como se fosse um amigo da nossa idade.

Camarada Ondjaki, seu livro é esculú! Nele a vida ganha matizes variados, são tantas cores que mais se parece com arco-íris. E tem muito para se observar, como por exemplo, como a criança lida com a morte. Com as mudanças do corpo. Com as determinações dos adultos. Outra coisa, por que criança gosta tanto do universo político, e dentro dele dos comícios? Sobre isso fiquei pensativa. Eu confesso que amava ir a comícios e discutia política como se soubesse distinguir o bom do mau político, porém, ando meio decepcionada e aboli essa temática das minhas conversas. Você e Ndalu me permitiram tantas reflexões que não cabem aqui, mas que se somam a outros retalhos que unidos com linha dão forma a esta boneca de pano.

Ai que saudade senti daqueles da minha rua, meus vizinhos e amigos. Das brincadeiras, das "traquinagens"... Se pudéssemos domar o tempo, certamente eu o obrigaria a me levar para aquele mundo encantado em que eu vivia, para sentir aqueles cheiros, tocar aquelas criaturas divinas que lá moravam e que me fizeram tão feliz. Sair daquela rua foi muito dolorido como o foi também para o Ndalu. Ainda sinto o nó na garganta como no dia que de lá saí. Ché, lágrima teimosa que cisma em cair. Bem, acho melhor me despedir desta visita ás minhas memórias.

Ah, sim! Meus pais também ficam a jiboiar depois do almoço (risos).

Espero encontrá-lo em breve, em uma nova leitura....Até mais....


Abraços, Paula Ivony Laranjeira.


P.S.: Camba, não posso deixar de agradecer por me aproximar um pouco mais do teu país, da literatura africana e de alguns elementos linguísticos que encontrei no texto. Já havia encontrado esta característica em outros textos africanos e até já entendi o porquê. Falamos sobre isso em outra ocasião.




Sobre o autor:

Ndalu de Almeida, mais conhecido por seu pseudônimo Ondjaki, nasceu em Luanda, em 1977. Prosador e poeta, também escreve para cinema e co-realizou um documentário sobre a cidade de Luanda (“Oxalá cresçam pitangas – histórias de Luanda”, 2006). É membro da União dos Escritores Angolanos e da Associação Protectora do Anonimato dos Gambuzinos. Alguns livros seus foram traduzidos para francês, espanhol, italiano, alemão, inglês, sérvio, sueco e chinês.

Foi laureado pelo Grande Prêmio de Conto Camilo Castelo Branco 2007, pelo seu livro Os da Minha Rua. Recebeu, na Etiópia, o prêmio Grinzane por melhor escritor africano de 2008.

LIVROS

Actu Sanguíneu" (poesia, 2000)

"Bom Dia Camaradas" (romance, 2001)

"Momentos de Aqui" (contos, 2001)

"O Assobiador" (novela, 2002)

"Há prendisajens com o xão" (poesia, 2002)

"Quantas Madrugadas Tem a Noite" (romance, 2004)

Ynari: a menina das cinco tranças” (infantil, 2004)

E se amanhã o medo” (contos, 2005)

Os da minha rua” (estórias, 2007)

AvóDezanove e o segredo do soviético” (romance, 2008)

O leão e o coelho saltitão” (infantil, 2008)

"Materiais para a confecção de um espanador de tristezas" (poesia, 2009)

Os vivos, o morto e o peixe-frito” (teatro, 2009 - Ed. especial, BRASIL)

O voo do Golfinho” (infantil, 2009)


*Alguns termos fazem parte do livro e sua tradução acompanham o glossário.


esculú: Muito bom

Ché: interjeição de espanto ou júbilo

camba: amigo, companheiro

jiboiar: estar sonolento ou ocioso

mô: meu


Trechos de seus livros podem ser lidos no site:

http://www.kazukuta.com/ondjaki/ondjaki.html



27 de dezembro de 2009

O pêndulo de Euclides, de Aleilton Fonseca

Portal de entrada do Parque Estadual de Canudos


Bons dias, Seu Aleilton! Como tens passado?

Sabe, eu tô meio lá meio cá, mas vou vivendo assim, do jeito que Deus manda. O que se há de fazer, né?! E foi desse jeito, mesmo assim, com meus perrengues, que venho contar as “novi” de uma viagem que fiz. História triste e bonita, até dava um desses causos que o senhor gosta de contar, que nem Nhô Guimarães.

Fiz a viagem com uns amigos seus, pelo menos foi o que disseram. E não é que, com eles, tive o privilégio de conhecer Canudos e o “outro lado” da história? Na verdade, o que eu queria, mesmo, eram novidades, saber de coisas não “sabidas”, adentrar um mundo que de tão diferente do meu, fosse exótico, irreal, capaz de me abduzir. Mas eu já devia esperar... Andar com seu “povo” significa ir ao encontro do “eu” que há mim, e não o contrário.

Então chega aqui, que te conto “tudim”. Estava eu no meio do sertão baiano, sentada num canto qualquer, um sol escaldante, a água já se evaporava, e de repente passam três homens num carro. O engraçado era que o automóvel tinha até nome, vê se pode! Se chamava O pêndulo de Euclides, só depois entendi o porquê. O possante parou, os homens estavam um pouco atrapalhados com um mapa na mão. Fiquei com medo, afinal por aqui já passaram alguns meliantes fugindo da polícia, entre eles cito Leonardo Pareja – contudo, não pense que isto é para nós motivo de orgulho, muito pelo contrário – mas logo percebi que eram gente de bem.

Vendo minha crescente curiosidade sobre o que falavam, me seduziam para seguir com eles, oferecendo um “lugarzim” no carro. Bem, eu que não sou besta nem nada, fui. Mas olhe, confiei porque eram seus amigos, e tudo respeitador de moça donzela, pelo menos comigo, já que não me dou ao desfrute. Entretanto, vou confessar uma coisa: saí sem avisar minha gente que iria com eles, pois minha mãe do jeito que é não me deixaria ir. Assim, falei que iria ter com uns parentes em outra cidade. Ela nem sonha com as viagens que faço! Então, não espalhe!

Até chegar a Canudos fiquei “mudinha da silva”, só ouvindo as prosas dos três. O professor, um dos viajantes, é que vez ou outra explicava o que era, a mim, desconhecido. Os outros, um poeta e um estrangeiro, este último volta e meia fazia biquinho quando conversava sua língua “aportufrancesada”. Eu dava era risada. E lá íamos, eu no banco carona e o professor dirigindo, e ele, às vezes, me olhava de soslaio com um riso de adulto que vê criança se lambuzando com doce. Contudo, ali estava acontecendo o descobrir do mundo. O mundo de Euclides, do Conselheiro, de Canudos e de um “outro” sertão.

Eles sempre com suas prosas, e, eu atenta, ouvindo as “sabidurias” que falavam. É preciso lhe falar, meu amigo, que eu já tinha ouvido falar do Conselheiro. Porém, no pouco que ouvi, parecia ele um fanático, com pinta de doido, misturado com Francisco de Assis, só que cabeludo. Mas veja só, Seu Aleilton, eu que era lá revoltada com os desmandos de antigamente, por causa do sofrimento do povo sem vez e voz, depois de ouvir as histórias que eles falavam, passei a achar o Conselheiro um homem santo, um tanto parecido com Moisés, o “cara” lá da Bíblia, que queria salvar seu povo da escravidão, retirar do deserto e levar para a “terra que corre leite e mel”.

Confesso, caro amigo, que fiquei impressionada com essas histórias. Mas, olhe, coisa bonita, mesmo, foi conhecer as histórias do Euclides, o homem que escreveu Os sertões. Fiquei sabendo que ele foi mandado para Canudos para escrever a bem das autoridades, mas aí, chegando lá, ele viu a verdade. Sabe Seu Aleilton, eu até acho que ele chorou de tristeza com tudo aquilo: soldados aos montes, canhões, armas de fogo e tudo o mais matando criança, velho, famílias inteiras. E quando a gente pensa nos motivos que levou a essa Guerra... Fico pensando que assim deve ser essas guerras do exterior, por esses motivos que o senhor já deve saber. Porém, não espalhe que tal segredo só pode ser “sabido” por quem viaja em O pêndulo de Euclides.

Tarde em Canudos, vendo-se o Cocorobó e parte do Anfiteatro de Guerra

Continuando minha história... O professor me contou uma novidade: disse que lá durante a Guerra, quando o povo de Canudos estava encurralado, com sede e fome, o doutor Euclides em sua tenda no meio da Guerra foi visitado por um soldado canudense, que entrou por baixo da lona. E ali, naquele instante, passaram a existir dois homens com medo da morte. No entanto, o que me surpreendeu foi o que aconteceu depois, mas essa é outra história que lhe conto pessoalmente.

O fato é que não demorou muito e chegamos a Canudos. E eu, pensei que iríamos ficar em hotel de luxo, daqueles que aparecem em filmes e novelas! Pousamos foi na pensão de D. Elza. Mas olhe, valeu a pena, exceto pela carne de bode, pois não gosto. O mais estava supimpa! Até parecia que eu estava em casa. Por um instante fechei os olhos e tive a impressão de ver aquela senhora se transfigurar em minha mãe: seus modos, o preparo das comidas, o acolhimento às visitas. Se soubesse teria convidado minha Mel[1] para vir conosco, penso que daria longas prosas com a anfitriã da pensão.

Vixe! Já ia me esquecendo de falar! Conheci o Parque de Canudos. Olhei aquilo tudo com lágrimas e muita tristeza dentro de mim. Tive vontade de sair correndo para não ouvir aqueles clamores, vozes, gemidos e tiros que pairavam no ar. Saber das coisas da guerra foi doído, mas os meus três amigos que eram de muita “sabiduria” das coisas, disseram que ainda tem mais coisas a se falar, principalmente, as histórias do povo, aquilo que mistura o lendário ao real.

Eta, Seu “Alê”, figura luminosa para se apreciar na viagem é seu Ozébio, um velhinho cheio de sabedoria, que, às vezes, virava ator para enganar com sua caduquice alguns pesquisadores. Ainda bem que ele se afeiçoou da gente e contou sua história, a de Canudos, da Guerra e me deixou com uma pulga atrás da orelha. E quem não ficaria...

O Grand Finale desse mágico passeio se deu num auto, O auto de Belo Monte. Esse negócio de auto me traz tantas recordações: Ariano, João Grilo, Chicó, Cleriston, Diego, CESC. Mas deixa pra lá que não vem ao caso. Depois voltamos para casa. E assim, naquela viagem, n’O pêndulo de Euclides, as coisas da vida iam se misturando às coisas dos livros e a fantasia invadia a realidade e vice-versa, de modo que não se podia mais separar.

Hoje, tantos dias passados, deu vontade de refazer a viagem, revisitar aqueles lugares, voltar a falar com as pessoas, tomar água de coco na feira, provar as iguarias... “Peraí”! Ei Seu Aleilton, esqueci de falar daqui, do meu sertão, um lugar tão diferente do de Euclides, mas parecido com o seus, os quais visitei em Jaú dos bois; O canto de Alvorada; O desterro dos mortos; Nhô Guimarães e também agora em O pêndulo de Euclides. No meu sertão tem feira igual a que visitamos em Canudos; tem hotel que mais se parece com pensão; tem essa mesma gente que por lá encontramos. Claro, tem outras gentes também; tem esse acolhimento, comidas caseiras, tudo preparado na hora; temos também nosso “Conselheiro”, o padre Aldo Lucchetta, já falecido, e por pouco não tivemos “com” ele uma guerra. Vai ver são estas “semelhanças” que me prendem a você, ou talvez seja esse seu jeito de contar histórias diferentes da minha, mas que lá no fundo são parecidas. Isso enternece a gente e, para não dizer que faz chorar, vou pedir licença a Guimarães, o Rosa, para dizer que nos faz “babar pelos olhos”. Acho que estou alongando por demais esta prosa, então Seu “Alê” – perdoe-me a intimidade – vou ficando por aqui. Outro dia lhe conto outras viagens.

Dê lembranças à família.

Abraços... Paula Ivony Laranjeira.


Biobibliografia de Aleilton


"ALEILTON (Santana da) FONSECA nasceu em Itamirim, hoje Firmino Alves - Bahia, em 21/07/1959. É poeta, ficcionista, ensaísta e professor universitário. Em 1977, começa a publicar contos e poemas no Jornal da Bahia, de Salvador, tendo vencido 3 vezes o seu Concurso Permanente de Contos. Publica também no suplemento A Tarde/Novela, do jornal A Tarde. Em Ilhéus passa a assinar a coluna "Entre Aspas", no Jornal da Manhã. Ainda neste ano, vence um prêmio de contos da Editora Grafipar, do Paraná, além de outros locais. Em 1979, ingressa no curso de Letras da UFBA. Organiza seu primeiro livro de poemas, que recebe Menção Honrosa no concurso Prêmios Literários Universidade Federal da Bahia.

Em 1984 ingressa, como professor, no curso de Letras da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, transferindo-se para a cidade de Vitória da Conquista. Publica o livro de poemas, O espelho da consciência. Em 1988, especializa-se em Literatura brasileira, ao ingressar no Mestrado em Letras, na Universidade Federal da Paraíba. Em 1992 defende tese de mestrado, sobre música e literatura romântica. Em 1997, defende a tese de doutorado intitulada: “A poesia da cidade: Imagens urbanas em Mário de Andrade”, que sairá em livro proximamente.

Ainda em 1996 retorna a Salvador, onde fixa residência. Concorre ao "Prêmios Culturais de Literatura" da Fundação Cultural do Estado da Bahia, com o livro Jaú dos Bois, que fica entre os vencedores (3o Lugar) e é publicado pela Relume Dumará, em 1997. Em 1998, funda, em parceria com Carlos Ribeiro e outros escritores, Iararana – Revista de arte, crítica e literatura, periódico de divulgação da geração 80. Em 1999, transfere-se para a Universidade Estadual de Feira de Santana, integrando-se ao grupo fundador do curso de Pós-Graduação em Literatura e Diversidade Cultural (PPgLDC), tendo já orientado várias dissertações concluídas.

Em 2003 leciona, como professor convidado, na Universidade de Artois (França). Neste ano e nos seguintes faz palestras nas Universidades: Sorbonne Nouvelle, Nanterre, Artois, Rennes, Toulouse Le Mirail (França) e ELTE (Budapeste). Tem participado de diversos eventos universitários e culturais em vários estados do país. Em 2001 publica o livro de contos O desterro dos mortos. Nesse ano recebeu o Prêmio Nacional Herberto Sales – Contos, da academia de Letras da Bahia, com o livro O canto de Alvorada, publicado em 2003,com 2ª edição em 2004, pela Editora José Olympio. Em 2005 co-organiza (com o escritor Cyro de Mattos), o livro O triunfo de Sosígenes Costa: estudos, depoimentos, antologia (Ilhéus: Editus; Feira de Santana, UEFS Editora, 2005.), que recebeu o Prêmio Marcos Almir Madeira 2005, da União Brasileira de Escritores-RJ.

Em 2009 completou 50 anos e foi homenageado pelo Lycée des Arènes, em Toulouse-França, com uma exposição de trabalhos de alunos sobre seu livro Les marques du feu. Na Bahia foi homenageado pelo IL-UFBA. Neste mesmo ano, seu romance Nhô Guimarães foi adaptado para o teatro e encenado em Salvador e outras cidades. É correspondente da revista francesa Latitudes: cahiers lusophones. Desde 2005, pertence à Academia de Letras da Bahia, ocupando a cadeira nº 20. É membro da UBE-São Paulo e do PEN Clube do Brasil.

Livros de poesia, ensaio, contos e romance:

  • Movimento de Sondagem. Salvador; Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1981. “Coleção dos Novos, vol. 2 – série Poesia”

  • O espelho da consciência. Salvador: Gráfica da UFBA, 1984

  • Teoria particular (mas nem tanto) do poema — ou poética feita em casa. São Paulo: Edições D’Kaza, 1994

  • Enredo romântico, música ao fundo. (ensaio) Rio de Janeiro: 7 Letras, 1996

  • Oitenta: poesia e prosa. Coletânea comemorativa dos 15 anos da “Coleção dos Novos”. Salvador: BDA-Bahia, 1996. (org. Aleilton Fonseca e Carlos Ribeiro)

  • Jaú dos bois e outros contos. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1997

  • Rotas e imagens: literatura e outras viagens. Feira de Santana: UEFS/PPGLDC, 2000. (Org. Aleilton Fonseca e Rubens Alves Pereira)

  • O desterro dos mortos (contos) Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001

  • O canto de Alvorada (contos). Rio de Janeiro: José Olympio, 2003

  • O triunfo de Sosígenes Costa. Ilhéus: Editus, 2004. (Org. Cyro de Mattos e Aleilton Fonseca)

  • As formas do barro & outros poemas. Salvador: EPP. 2006

  • Nhô Guimarães (romance). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006

  • Todas as casas (contos, livro coletivo). Salvador: EPP, 2007

  • Les marques du feu et autres nouvelles de Bahia. Paris: Lanore, 2008. (Tradução de Dominique Stoenesco)

  • Guimarães Rosa, écrivain brésilien centenaire. Bruxelas, Librairie Orfeu, 2008

  • O olhar de Castro Alves. (org.). Salvador: ALB/ALBA, 2008

  • O pêndulo de Euclides (romance). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009"


Disponível em: http://www.academiadeletrasdabahia.org.br/Academicos/aleilton.html



[1] Apelido que dei à minha mãe.


4 de outubro de 2009

Dedos de prosa com o amigo Rosa


Fala, Rosa, quero ouvir suas sagas. Os teus bois. A tua-nossa gente pede passagem.
Nas Gerais percorro o teu caminho, costurando os retalhos da sua-nossa gente à minha-sua gente.
Teus amores me inebriam, me encantam e me arrancam suspiros. Devoro as letras e anseio pular as páginas, mas não o faço, pois temo perder os detalhes nos quais deleito.
Me perco nas matas, nas estradas nesse teu sertão das Gerais. E descubro a astúcia, a sabedoria dessa gente sem diploma.
Sabe, Rosa, estou mais confusa. E bois falam? Os teus falam. Às vezes me sinto boi, animal irracional, levado de um lado para o outro, presa no cabresto, mas meus olhos não "babam" mais, secaram como a terra do meu-nosso sertão. Secaram... E quando essa baba dos olhos seca a gente fica numa agonia sem tamanho.
mas mudando de assunto, queria te apresentar um amigo meu, gente do sertão também, mas do sertão da Bahia, o Aleilton, home de minha estima, cê precisa de vê, ele escreve essas coisas da gente que é uma belezura. mas tem hora que ele escreve coisa muito triste, que até faz chorar.
Sabe, Rosa, a prosa tá boa, mas tenho que terminar de ler Sagarana, um dos livros do grande João Guimarães Rosa.

Paula Ivony Laranjeira


Sagarana, obra que apresenta a paisagem mineira em toda a sua beleza selvagem, rendeu a Giumarães Rosa vários prêmios e o reconhecimento como um dos mais importantes livros surgidos no Brasil contemporâneo. Os contos de Sagarana traz a vida das fazendas, dos vaqueiros e criadores de gado, mundo que Rosa habitara em sua infância e adolescência. Neste livro, o autor transpôs a linguagem rica e pitoresca do povo, registrou regionalismos, muitos deles jamais escritos na literatura brasileira.- Fundação Guimarães Rosa -

Biografia:

"João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo (MG) a 27 de junho de 1908 e era o primeiro dos seis filhos de D. Francisca (Chiquitinha) Guimarães Rosa e de Florduardo Pinto Rosa, mais conhecido por "seu Fulô" comerciante, juiz-de-paz, caçador de onças e contador de estórias.

Joãozito, como era chamado, com menos de 7 anos começou a estudar francês sozinho, por conta própria. Somente com a chegada do Frei Canísio Zoetmulder, frade franciscano holandês, em março de 1917, pode iniciar-se no holandês e prosseguir os estudos de francês, agora sob a supervisão daquele frade.

Terminou o curso primário no Grupo Escolar Afonso Pena; em Belo Horizonte, para onde se mudara, antes dos 9 anos, para morar com os avós. Em Cordisburgo fora aluno da Escola Mestre Candinho. Iniciou o curso secundário no Colégio Santo Antônio, em São João del Rei, onde permaneceu por pouco tempo, em regime de internato, visto não ter conseguido adaptar-se — não suportava a comida.

De volta a Belo Horizonte matricula-se no Colégio Arnaldo, de padres alemães e, imediatamente, iniciou o estudo do alemão, que aprendeu em pouco tempo. Era um poliglota, conforme um dia disse a uma prima, estudante, que fora entrevistá-lo:

Falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituânio, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do tcheco, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração.

Em 1925, matricula-se na então denominada Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais, com apenas 16 anos. Segundo um colega de turma, Dr. Ismael de Faria, no velório de um estudante vitimado pela febre amarela, em 1926, teria Guimarães Rosa dito a famosa frase: "As pessoas não morrem, ficam encantadas", que seria repetida 41 anos depois por ocasião de sua posse na Academia Brasileira de Letras.

Sua estréia nas letras se deu em 1929, ainda como estudante. Escreveu quatro contos: Caçador de camurças, Chronos Kai Anagke (título grego, significando Tempo e Destino), O mistério de Highmore Hall e Makiné para um concurso promovido pela revista O Cruzeiro. Todos os contos foram premiados e publicados com ilustrações em 1929-1930, alcançando o autor seu objetivo, que era o de ganhar a recompensa nada desprezível de cem contos de réis. Chegou a confessar, depois, que nessa época escrevia friamente, sem paixão, preso a modelos alheios.

Em 27 de junho de 1930, ao completar 22 anos, casa-se com Lígia Cabral Penna, então com apenas 16 anos, que lhe dá duas filhas: Vilma e Agnes. Dura pouco seu primeiro casamento, desfazendo-se uns poucos anos depois. Ainda em 1930, forma-se em Medicina, tendo sido o orador da turma, escolhido por aclamação pelos 35 colegas.

Guimarães Rosa vai exercer a profissão em Itaguara, pequena cidade que pertencia ao município de Itaúna (MG), onde permanece cerca de dois anos. Relaciona-se com a comunidade, até mesmo com raizeiros e receitadores, reconhecendo sua importância no atendimento aos pobres e marginalizados, a ponto de se tornar grande amigo de um deles, de nome Manoel Rodrigues de Carvalho, mais conhecido por "seu Nequinha", que morava num grotão enfurnado entre morros, num lugar conhecido por Sarandi.

Espírita, "Seu Nequinha" parece ter sido o inspirador da figura do Compadre meu Quelemém, espécie de oráculo sertanejo, personagem de Grande Sertão: Veredas.

Diante de sua incapacidade de por fim às dores e aos males do mundo numa cidade que não tinha nem energia elétrica, segundo depoimento de sua filha Vilma, o autor, sensível como era, acaba por afastar-se da Medicina. Contribuiu também para isso o fato de o escritor ter que assistir o parto de sua mulher, pois o farmacêutico e o médico da cidade vizinha de Itaúna só terem chegado quando Vilma já havia nascido.

Guimarães Rosa, durante a Revolução Constitucionalista de 1932, trabalha como voluntário na Força Pública. Posteriormente, efetiva-se, por concurso. Em 1933, vai para Barbacena na qualidade de Oficial Médico do 9º Batalhão de Infantaria. Segundo depoimento de Mário Palmério, em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, o quartel pouco exigia de Guimarães Rosa – "quase que somente a revista médica rotineira, sem mais as dificultosas viagens a cavalo que eram o pão nosso da clínica em Itaguara, e solenidade ou outra, em dia cívico, quando o escolhiam para orador da corporação". Assim, sobrava-lhe tempo para dedicar-se com maior afinco ao estudo de idiomas estrangeiros; ademais, no convívio com velhos milicianos e nas demoradas pesquisas que fazia nos arquivos do quartel, o escritor teria obtido valiosas informações sobre o jaguncismo barranqueiro que até por volta de 1930 existiu na região do Rio São Francisco.

Um amigo do escritor, impressionado com sua cultura e erudição, e, particularmente, com seu notável conhecimento de línguas estrangeiras, lembrou-lhe a possibilidade de prestar concurso para o Itamarati, conseguindo entusiasmá-lo. O então Oficial Médico do 9º Batalhão de Infantaria, após alguns preparativos, seguiu para o Rio de Janeiro onde prestou concurso para o Ministério do Exterior, obtendo o segundo lugar. Por essa ocasião, aliás, já era por demais evidente sua falta de "vocação" para o exercício da Medicina, conforme ele próprio confidenciou a seu colega Dr. Pedro Moreira Barbosa, em carta datada de 20 de março de 1934:

Não nasci para isso, penso. Não é esta, digo como dizia Don Juan, sempre 'après avoir couché avec...’ Primeiramente, repugna-me qualquer trabalho material só posso agir satisfeito no terreno das teorias, dos textos, do raciocínio puro, dos subjetivismos. Sou um jogador de xadrez nunca pude, por exemplo, com o bilhar ou com o futebol.

Antes que os anos 30 terminem, ele participa de outros dois concursos literários. Em 1936, a coletânea de poemas Magma recebe o prêmio de poesia da Academia Brasileira de Letras. Um ano depois, sob o pseudônimo de "Viator", concorre ao prêmio HUMBERTO DE CAMPOS, com o volume intitulado Contos, que em 46, após uma revisão do autor, se transformaria em Sagarana, obra que lhe rendeu vários prêmios e o reconhecimento como um dos mais importantes livros surgidos no Brasil contemporâneo. Os contos de Sagarana apresentam a paisagem mineira em toda a sua beleza selvagem, a vida das fazendas, dos vaqueiros e criadores de gado, mundo que Rosa habitara em sua infância e adolescência. Neste livro, o autor já transpõe a linguagem rica e pitoresca do povo, registra regionalismos, muitos deles jamais escritos na literatura brasileira.

Em 1938, Guimarães Rosa é nomeado Cônsul Adjunto em Hamburgo, e segue para a Europa; lá fica conhecendo Aracy Moebius de Carvalho (Ara), que viria a ser sua segunda mulher. Durante a guerra, por várias vezes escapou da morte; ao voltar para casa, uma noite, só encontrou escombros. A superstição e o misticismo acompanhariam o escritor por toda a vida. Ele acreditava na força da lua, respeitava curandeiros, feiticeiros, a umbanda, a quimbanda e o kardecismo. Dizia que pessoas, casas e cidades possuíam fluidos positivos e negativos, que influíam nas emoções, nos sentimentos e na saúde de seres humanos e animais. Aconselhava os filhos a terem cautela e a fugirem de qualquer pessoa ou lugar que lhes causasse algum tipo de mal estar.

Embora consciente dos perigos que enfrentava, protegeu e facilitou a fuga de judeus perseguidos pelo Nazismo; nessa empresa, contou com a ajuda da mulher, D. Aracy. Em reconhecimento a essa atitude, o diplomata e sua mulher foram homenageados em Israel, em abril de 1985, com a mais alta distinção que os judeus prestam a estrangeiros: o nome do casal foi dado a um bosque que fica ao longo das encostas que dão acesso a Jerusalém.

Foi a forma encontrada pelo governo israelense para expressar sua gratidão àqueles que se arriscaram para salvar judeus perseguidos pelo Nazismo por ocasião da 2ª Guerra Mundial. Segundo D. Aracy, que compareceu a Israel por ocasião da homenagem, seu marido sempre se absteve de comentar o assunto já que tinha muito pudor de falar de si mesmo. Apenas dizia: "Se eu não lhes der o visto, vão acabar morrendo; e aí vou ter um peso em minha consciência."

Em 1942, quando o Brasil rompe com a Alemanha, Guimarães Rosa é internado em Baden-Baden, juntamente com outros compatriotas, entre os quais se encontrava o pintor pernambucano Cícero Dias, Ficam retidos durante 4 meses e são libertados em troca de diplomatas alemães. Retornando ao Brasil, após rápida passagem pelo Rio de Janeiro, o escritor segue para Bogotá, como Secretário da Embaixada, lá permanecendo até 1944. Sua estada na capital colombiana, fundada em 1538 e situada a uma altitude de 2.600 m, inspirou-lhe o conto Páramo, de cunho autobiográfico, que faz parte do livro póstumo Estas Estórias. O conto se refere à experiência de "morte parcial" vivida pelo protagonista (provavelmente o próprio autor), experiência essa induzida pela solidão, pela saudade dos seus, pelo frio, pela umidade e particularmente pela asfixia resultante da rarefação do ar (soroche – o mal das alturas).

Em dezembro de 1945 o escritor retornou ao Brasil depois de longa ausência. Dirigiu-se, inicialmente, à Fazenda Três Barras, em Paraopeba, berço da família Guimarães, então pertencente a seu amigo Dr. Pedro Barbosa e, depois, a cavalo, rumou para Cordisburgo, onde se hospedou no tradicional Argentina Hotel, mais conhecido por Hotel da Nhatina.

Em 1946, Guimarães Rosa é nomeado chefe-de-gabinete do ministro João Neves da Fontoura e vai a Paris como membro da delegação à Conferência de Paz.

Em 1948, o escritor está novamente em Bogotá como Secretário-Geral da delegação brasileira à IX Conferência Inter-Americana; durante a realização do evento ocorre o assassinato político do prestigioso líder popular Jorge Eliécer Gaitán, fundador do partido Unión Nacional Izquierdista Revolucionaria, de curta mas decisiva duração.

De 1948 a 1950, o escritor encontra-se de novo em Paris, respectivamente como 1º Secretário e Conselheiro da Embaixada. Em 1951 é novamente nomeado Chefe de Gabinete de João Neves da Fontoura. Em 1953 torna-se Chefe da Divisão de Orçamento e em 1958 é promovido a Ministro de Primeira Classe (cargo correspondente a Embaixador).

Guimarães Rosa retorna ao Brasil em 1951. No ano seguinte, faz uma excursão ao Mato Grosso. O resultado é uma reportagem poética: Com o vaqueiro Mariano. Segundo depoimento do próprio Manuel Narde, vulgo Manuelzão, falecido em 5 de maio de 1997, protagonista da novela Uma estória de amor, incluída no volume Manuelzão e Miguilim, durante os dias que passou no sertão, Guimarães Rosa pedia notícia de tudo e tudo anotava "ele perguntava mais que padre" –, tendo consumido "mais de 50 cadernos de espiral, daqueles grandes", com anotações sobre a flora, a fauna e a gente sertaneja usos, costumes, crenças, linguagem, superstições, versos, anedotas, canções, casos, estórias...

Em ensaio crítico sobre Corpo de Baile, o professor Ivan Teixeira afirma que o livro talvez seja o mais enigmático da literatura brasileira. As novelas que o compõem formam um sofisticado conjunto de logogrifos, em que a charada é alçada à condição de revelação poética ou experimento metafísico. Na abertura do livro, intitulada Campo Geral, Guimarães Rosa se detém na investigação da intimidade de uma família isolada no sertão, destacando-se a figura do menino Miguelim e o seu desajuste em relação ao grupo familiar. Campo Geral surge como uma fábula do despertar do autoconhecimento e da apreensão do mundo exterior; e o conjunto das novelas surge como passeio cósmico pela geografia rosiana, que retoma a idéia básica de toda a obra do escritor: o universo está no sertão, e os homens são influenciados pelos astros.

Em 1956, no mês de janeiro, reaparece no mercado editorial com as novelas Corpo de Baile, onde continua a experiência iniciada em Sagarana. A partir de o Corpo de Baile, a obra de Rosa - autor reconhecido como o criador de uma das vertentes da moderna linha de ficção do regionalismo brasileiro - adquire dimensões universalistas, cuja cristalização artística é atingida em Grande Sertão: Veredas, lançado em maio de 56. O terceiro livro de Guimarães Rosa, uma narrativa épica que se estende por 600 páginas, focaliza numa nova dimensão, o ambiente e a gente rude do sertão mineiro. Grande Sertão: Veredas reflete um autor de extraordinária capacidade de transmissão do seu mundo, e foi resultado de um período de dois anos de gestação e parto. A história do amor proibido de Riobaldo, o narrador, por Diadorim é o centro da narrativa. Para Renard Perez, autor de um ensaio sobre Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas, além da técnica e da linguagem surpreendentes, deve-se destacar o poder de criação do romancista, e sua aguda análise dos conflitos psicológicos presentes na história.

O lançamento de Grande Sertão: Veredas causa grande impacto no cenário literário brasileiro. O livro é traduzido para diversas línguas e seu sucesso deve-se, sobretudo, às inovações formais. Crítica e público dividem-se entre louvores apaixonados e ataques ferozes. Torna-se um sucesso comercial, além de receber três prêmios nacionais: o Machado de Assis, do Instituto Nacional do Livro; o Carmen Dolores Barbosa, de São Paulo; e o Paula Brito, do Rio de Janeiro. A publicação faz com que Guimarães Rosa seja considerado uma figura singular no panorama da literatura moderna, tornando-se um "caso" nacional. Ele encabeça a lista tríplice, composta ainda por Clarice Lispector e João Cabral de Melo Neto, como os melhores romancistas da terceira geração modernista brasileira.

Ainda que não publicasse nada até 1962, o interesse e o respeito pela obra rosiana só aumentavam, em relação à crítica e ao público. Unanimidade, o escritor recebe, em 1961, o Prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra. Ele começa a obter reconhecimento no exterior.

Em janeiro de 1962, assume a chefia do Serviço de Demarcação de Fronteiras, cargo que exerceria com especial empenho, tendo tomado parte ativa em momentosos casos como os do Pico da Neblina (1965) e das Sete Quedas (1966). Em 1969, em homenagem ao seu desempenho como diplomata, seu nome é dado ao pico culminante (2.150 m) da Cordilheira Curupira, situado na fronteira Brasil/Venezuela. O nome de Guimarães Rosa foi sugerido pelo Chanceler Mário Gibson Barbosa, como um reconhecimento do Itamarati àquele que, durante vários anos, foi o chefe do Serviço de Demarcação de Fronteiras da Chancelaria Brasileira.

Em 1958, no começo de junho, Guimarães Rosa viaja para Brasília, e escreve para os pais:

Em começo de junho estive em Brasília, pela segunda vez lá passei uns dias. O clima da nova capital é simplesmente delicioso, tanto no inverno quanto no verão. E os trabalhos de construção se adiantam num ritmo e entusiasmo inacreditáveis: parece coisa de russos ou de norte-americanos"... "Mas eu acordava cada manhã para assistir ao nascer do sol e ver um enorme tucano colorido, belíssimo, que vinha, pelo relógio, às 6 hs 15’, comer frutinhas, na copa da alta árvore pegada à casa, uma tucaneira’, como por lá dizem. As chegadas e saídas desse tucano foram uma das cenas mais bonitas e inesquecíveis de minha vida.

A partir de 1958, o autor começa a apresentar problemas de saúde e estes seriam, na verdade, o prenúncio do fim próximo, tanto mais quanto, além da hipertensão arterial, o paciente reunia outros fatores de risco cardiovascular como excesso de peso, vida sedentária e, particularmente, o tabagismo. Era um tabagista contumaz e embora afirme ter abandonado o hábito, em carta dirigida ao amigo Paulo Dantas em dezembro de 1957, na foto tirada em 1966, quando recebia do governador Israel Pinheiro a Medalha da Inconfidência, aparece com um cigarro na mão esquerda. A propósito, na referida carta, o escritor chega mesmo a admitir, explicitamente, sua dependência da nicotina:

... também estive mesmo doente, com apertos de alergia nas vias respiratórias; daí, tive de deixar de fumar (coisa tenebrosa!) e, até hoje (cabo de 34 dias!), a falta de fumar me bota vazio, vago, incapaz de escrever cartas, só no inerte letargo árido dessas fases de desintoxicação. Oh coisa feroz. Enfim, hoje, por causa do Natal chegando e de mais mil-e-tantos motivos, aqui estou eu, heróico e pujante, desafiando a fome-e-sede tabágica das pobrezinhas das células cerebrais. Não repare.

É importante frisar também que, coincidindo com os distúrbios cardiovasculares que se evidenciaram a partir de 1958, Guimarães Rosa parece ter acrescentado a suas leituras espirituais publicações e textos relativos à Ciência Cristã (Christian Science), religião cristã criada nos Estados Unidos em 1866 por Mrs. Mary Baker Eddy e que afirma a primazia do espírito sobre a matéria – "... the allness of Spirit and the nothingness of matter", a qual habilita compreender a nulidade do pecado, dos sentimentos negativos em geral, da doença e da morte, diante da totalidade do Espírito.

Em 1962, é lançado Primeiras Estórias, livro que reúne 21 contos pequenos. Nos textos, as pesquisas formais características do autor, uma extrema delicadeza e o que a crítica considera "atordoante poesia".

Em maio de 1963, Guimarães Rosa candidata-se pela segunda vez à Academia Brasileira de Letras (a primeira fora em 1957, quando obtivera apenas 10 votos), na vaga deixada por João Neves da Fontoura. A eleição dá-se a 8 de agosto e desta vez é eleito por unanimidade. Mas não é marcada a data da posse, adiada sine die, somente acontecendo quatro anos depois, no dia 16 de novembro de 1967.

Em janeiro de 1965, participa do Congresso de Escritores Latino-Americanos, em Gênova. Como resultado do congresso ficou constituída a Primeira Sociedade de Escritores Latino-Americanos, da qual o próprio Guimarães Rosa e o guatemalteco Miguel Angel Asturias (que em 1967 receberia o Prêmio Nobel de Literatura) foram eleitos vice-presidentes.

Em abril de 1967, Guimarães Rosa vai ao México na qualidade de representante do Brasil no I Congresso Latino-Americano de Escritores, no qual atua como vice-presidente. Na volta é convidado a fazer parte, juntamente com Jorge Amado e Antônio Olinto, do júri do II Concurso Nacional de Romance Walmap que, pelo valor material do prêmio, é o mais importante do país.

No meio do ano, publica seu último livro, também uma coletânea de contos, Tutaméia. Nova efervescência no meio literário, novo êxito de público. Tutaméia, obra aparentemente hermética, divide a crítica. Uns vêem o livro como "a bomba atômica da literatura brasileira"; outros consideram que em suas páginas encontra-se a "chave estilística da obra de Guimarães Rosa, um resumo didático de sua criação".

Três dias antes da morte o autor decidiu, depois de quatro anos de adiamento, assumir a cadeira na Academia Brasileira de Letras. Os quatro anos de adiamento eram reflexo do medo que sentia da emoção que o momento lhe causaria. Ainda que risse do pressentimento, afirmou no discurso de posse: "...a gente morre é para provar que viveu."

O escritor faz seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras com a voz embargada. Parece pressentir que algo de mal lhe aconteceria. Com efeito, três dias após a posse, em 19 de novembro de 1967, ele morreria subitamente em seu apartamento em Copacabana, sozinho (a esposa fora à missa), mal tendo tempo de chamar por socorro.

Em 1967, João Guimarães Rosa seria indicado para o prêmio Nobel de Literatura. A indicação, iniciativa dos seus editores alemães, franceses e italianos, foi barrada pela morte do escritor. A obra do brasileiro havia alcançado esferas talvez até hoje desconhecidas. Quando morreu tinha 59 anos. Tinha-se dedicado à medicina, à diplomacia, e, fundamentalmente às suas crenças, descritas em sua obra literária. Fenômeno da literatura brasileira, Rosa começou a publicar aos 38 anos. O autor, com seus experimentos lingüísticos, sua técnica, seu mundo ficcional, renovou o romance brasileiro, concedendo-lhe caminhos até então inéditos. Sua obra se impôs não apenas no Brasil, mas alcançou o mundo."


Disponível em: hhttp://www.releituras.com/guimarosa_bio.asp acessado em 05/10/09