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9 de outubro de 2013

Adelice Souza: "baú de estranhezas"




Reconhecida e prestigiada, a escritora baiana Adelice Souza, 38 anos, possui em sua bibliografia o romance: O homem que sabia a hora de morrer (Editora Escrituras),  os livros de contos As camas e os cães, de 2001 (Prêmio Copene de Literatura e Prêmio José Alejandro Cabassa/União Brasileira de Escritores - RJ); Caramujos zumbis, de 2003 (Prêmio Banco Capital, obra que, ainda este ano, será reeditada) e Para uma certa Nina, de 2009 (inaugurando o projeto Cartas Baianas). Adelice também se destacou como a única representante da Bahia na coletânea nacional de contos 30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira (2005), organizada pelo escritor e jornalista Luiz Ruffato.
  
Por: Poliana Dantas e Edvando Junior




 – Quem é Adelice Souza escritora?

Adelice Souza
 – É uma escritora que escreve muito menos do que gostaria, mas as atividades com o teatro, o yoga e o doutorado em artes cênicas têm tomado muito o tempo. Os livros estão sendo concebidos, são muitos projetos futuros, muitos desejos, mas escrever mesmo algo novo creio que só em 2015.

 – Como você consegue administrar sua carreira entre o teatro e a literatura?

Adelice
 – Não consigo administrar (risos)… Quando faço teatro, não faço literatura. Quando faço literatura, não faço teatro. Aí resolvi montar no teatro textos meus, assim, ao menos, a dramaturgia está lá, representando a literatura. Não consigo me dividir pois sou muito intensa nas coisas, faço imersões de tal forma que não consigo pensar em outra coisa a não ser na criação atual. Assim, tocar dois projetos ao mesmo tempo se torna difícil.

 – A literatura que você produz é definida por Carlos Ribeiro como um “Baú de Estranhezas”, ou seja, estranheza radical. Você acha que essa característica é pertinente a sua escrita?

Adelice
 – Gosto muito do escritor Carlos Ribeiro. A prosa dele é uma das nossas melhores prosas. E fiquei muito feliz com esta resenha da Iararana. E creio que há sim. Alguns temas estranhos me interessam em demasiado: o universo fabuloso, insólito e principalmente a morte, assuntos relacionados com a morte. Acho que sempre estou a escrever sobre a morte, este nosso mistério mais insondável de todos os mistérios…

– Quais são suas inspirações/influências no universo literário?

Adelice
 – Os absurdos e fantásticos como o Cortazar, o Murilo Rubião, o Kafka, o Campos de Carvalho. E a Nélida Piñon, com toda sua delicadeza e precisão linguística. Mas gosto dos canônicos que beiram a espiritualidade como o Herman Hesse, o Tagore, o pré-socrático Empédocles (aliás, todos os pré-socráticos são maravilhosos). E gosto muitíssimo de ler almanaques, livros sobre plantas e bichos.

– Conte-nos um pouco sobre sua carreira no teatro?

Adelice
 – O teatro é a minha primeira profissão. Embora eu tenha estudado Publicidade e Propaganda. Mas não sei vender nada. Meu teatro é quase anti-comercial. Tenho buscado o sagrado do palco, quero levar as técnicas e a natureza poética do Yoga para as artes cênicas. Acho que poucas pessoas se interessam por isso, mas é isso que sei fazer. Minhas últimas peças Jeremias, Profeta da Chuva;Francisco, um Sol; e Kali, Senhora da Dança, trazem temas sagrados, oriundos de diversas culturas religiosas como o Cristianismo, o universo das crenças sertanejas fruto de uma herança ibérica ou de um universo hindu. A próxima será sobre o grande filósofo e poeta Empédocles, que morreu, unindo-se ao seu Deus, o fogo do vulcão Etna. É isso que me encanta agora tanto na literatura quanto no teatro: estar perto de Deus.

– Em alguns contos que compõe as obras as Camas e os Cães (2001), Caramujus Zumbis (2003) e Para uma certa Nina (2009), percebe-se a presença de uma escrita envolvente, marcado por traços eróticos. De onde veio tanta inspiração para produzir esses contos?

Adelice
 – A Elis Franco e a Suelen Gonçalves, da Universidade de Feira de Santana e da Universidade de Niterói estudaram o erotismo nos meus contos e a Cássia Lopes, na orelha do primeiro livro, pontuou este assunto.

– Você considera o livro “O Homem que Sabia a Hora de Morrer” como um divisor de águas na sua carreira? Desde o lançamento o que mudou de lá para cá?

Adelice
 – Creio que é o meu livro mais importante. Ele é pueril, juvenil, simples. Mas me emociona sempre que leio, me arranca lágrimas e fico impressionada em gostar de ser leitora do meu próprio livro. Ele foi ofertado aos meus pais e meus avós. É um livro que fala de morte, de ancestralidade, das minhas origens de uma vida mais natural. Acredito que nada mudou de lá para cá e ao mesmo tempo, tudo mudou. É o meu primeiro romance, gosto dele, gosto da forma hibrida da linguagem que une cultura popular com a oralidade canônica de Homero. É uma parceria do teatro com a prosa e a literatura. Quero fazer isso sempre, porque gosto de transitar entre as diferentes artes. No lançamento, havia um trio nordestino e uma quermesse do interior na Biblioteca Central dos Barrís (2012). Nos outros lançamentos toquei sanfona em homenagem a São João do Carneirinho, tão citado no livro. Quero continuar fazendo isso, misturar a escrita com os santos, com as músicas, com as cenas.

– Como você analisa o panorama atual da literatura baiana?

Adelice
 – Há uma diversidade temática que me encanta muito. Há boa literatura para todos os gostos e idades. Desde uma prosa mais urbana de Victor Mascarenhas, passando pela delicadeza da poesia deKarina Rabinovitz até as metáforas perfeitas dos grandes Myriam Fraga, Ruy Espinheira Filho, ao teatro de Cleise Mendes, tantos, tantos outros. Gosto do que estamos produzindo. Sou fã da nossa literatura e fico feliz em ser amiga da maioria destes escritores contemporâneos meus.

– Fale-nos sobre a emoção de estar concorrendo ao Prêmio Jabuti 2013 na categoria Juvenil?

Adelice
 – Uma glória íntima, uma felicidade, um agradecimento aos deuses. Quero que este bichinho em forma de prêmio venha morar na minha casinha que tem o nome de Fuloresta Encantada. Fico feliz que a Bahia esteja lá, também, através de mim e do teatro de Aldri Anunciação com o Lázaro Ramos, com o Fernando Santana, estes dois últimos meus colegas no Liceu de Artes e Ofícios. A indicação é uma honra que me deixa muito feliz e agradecida a tudo e todos que ajudaram na feitura do livro “O Homem que Sabia a Hora de Morrer”. Aos meus avós, meus pais, meus mestres, meus amigos, meus companheiros e os escritores desta terrinha. Ao Affonso Romano de Santana, que me deu o presente de fazer a apresentação do livro. Ao Rogério Duarte, meu professor de sânscrito, que teve uma leitura atenta e carinhosa. Ao Claudius Portugal, tão presente sempre nas minhas andanças nas letras.


– Você está sempre participando de eventos como: oficinas, cafés, palestras, apresentações teatrais, feiras literárias, etc. Por estar sempre envolvida com teatro e literatura, existe algum projeto ou algo que gostaria de fazer nessas áreas, mas que ainda não pôs em prática?

Adelice
 – Deixe-me pensar: gostaria de tanta coisa. De ver os escritores atuando, por exemplo. De fazer um projeto onde os autores iriam subir no palco, com figurinos, luz, cenários. Isso seria bom e divertido. Mas eu não queria dirigir este projeto, não. Queria estar lá no palco, brincando de palavras com os colegas. Já fiz isso com Karina Rabinovitz no MAM. Toquei sanfona enquanto ela declamava poemas.Quero fazer isto mais vezes. Cantar, dançar e tocar a literatura. A literatura, para mim, tem que ser uma forma de felicidade.



8 de julho de 2012

Consumismo faz pessoas lerem sem pensar, diz educadora colombiana


As estimativas mais recentes da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) sobre a qualidade do ensino na Colômbia indicam que praticamente 100% dos jovens e adultos do país estão alfabetizados e que quase 15% do orçamento do governo é destinado para o aprimoramento de instituições públicas de ensino.
Para muitos brasileiros que ainda lutam para convencer o governo a converter o equivalente a 10% do PIB em recursos para o ensino público, isso seria considerado um grande exemplo a ser seguido. Para a educadora colombiana Silvia Castrillón, contudo, isso não quer dizer absolutamente nada.
Um dos nomes mais importantes em políticas públicas de apoio à leitura e à escrita na América Latina, ela revelou ao Opera Mundi que a maioria das estatísticas feitas sobre a educação do continente não demonstram nada além da hegemonia de um modelo produtivista de ensino e leitura.

Opera Mundi - Por que há cada vez mais pessoas lendo mais rapidamente quantidades maiores de livros?

Silvia Castrillón -
Essa é uma resposta à sociedade de consumo e de mercado. Trata-se de uma mercantilização do livro, de um consumismo acrítico infelizmente aliado a políticas públicas de leitura. É um modelo social de mercado no qual as palavras acabam sendo cooptadas por um pensamento hegemônico.
Na América Latina, por exemplo, as estatísticas são feitas sobre o número de livros e não mensuradas de acordo com práticas de leitura. O critério acaba sendo o consumo de livros, a quantidade de volumes por habitante e por ano que consome um país.
Com esses números, autoridades pensam que medem a qualidade da educação e do acesso à literatura. Na realidade, o que medem é o consumo, a compra. Nesses questionários a palavra é quase sempre “quanto”. “Quantos livros tem em sua casa?” e “Quantos livros já leu esse ano?”, a literatura se quantifica. São desconsiderados, portanto, fatores como tipo de leitura, qualidade de leitura e sentido de leitura.

OM - O que podemos esperar dos livros em tempos de imediatismo?

SC -
Uma de minhas críticas é justamente que as escolas não oferecem qualquer possibilidade de silêncio e de contemplação. O silêncio é extremamente necessário após a leitura de um poema, por exemplo. É preciso dar tempo para esse diálogo interior. Mas, nas escolas, isso não existe, todas estão lotadas de atividades. Torna-se impossível a meditação ou a introspecção.
Há também muito temor entre os adultos sobre o que as crianças podem estar pensando. Então a mente dos jovens acaba sendo colonizada com a ideia de que não há tempo a perder, de que tempo é ouro. Isso não é nada além de um modelo produtivista.

OM – Você já chegou a afirmar que “não há uma crise da leitura, mas sim uma crise do leitor”. Você ainda acredita nessa tese?

SC -
Eu acredito que agora se lê muito mais. As crianças, por exemplo, leem muito. A maioria já leu toda a série de Harry Potter, que é composta de livros com mais de 400 páginas. Há 20 anos, isso não ocorria.
Tudo isso, contudo, faz parte de uma lógica pragmática e lucrativa. A finalidade é quase sempre a simples informação ou a evasão da realidade. Ou seja, não é mais a leitura em si que está em crise, mas sim o modo de ler. O que eu acredito que perdeu sentido na sociedade é a busca de significação, a possibilidade de indagar-se sobre si mesmo e sobre os que estão a sua volta.
Há dez anos participei de uma mesa redonda com o sociólogo espanhol Gil Calvo, que argumenta que já não lemos mais como destino, mas sim como desocupação, como retiro. De alguma forma, a leitura era antes uma forma de questionar o passado e de construir um futuro individual ou coletivo. Agora não. Agora não se lê mais para saber no que se quer acreditar.
O que há é a leitura de aplicação prática e imediata, necessária para incutir nos jovens as competências de um trabalho pragmático e de uma cidadania acrítica.
OM - Em países emergentes, fala-se muito em “investir em educação” como forma de sustentar taxas de crescimento econômico. É esse o modelo de ensino que esses novos núcleos de poder geopolítico deveriam trazer consigo?

SC -
 Quando se relaciona educação com desenvolvimento econômico, quase sempre surge o pragmatismo da indústria. Trata-se tanto de um modo de alcançar a competitividade entre indivíduos quanto entre países.
Está na moda dizer que é necessário investir na educação para o desenvolvimento econômico. E não só em países em desenvolvimento como China, Brasil e Índia, mas também em nações pobres, como a Colômbia. O Estado até promove esses recursos, mas sem deixar de convocar o setor privado. E quando o setor privado aplica na educação, surgem investimentos, a meu ver, perversos.
Na Colômbia, por exemplo, o setor privado investe em educação dando bolsas de estudo das universidades mais elitistas do país a jovens mais pobres de melhor qualificação acadêmica. Tiram, assim, possíveis líderes de transformações de suas comunidades. Não sei se o Estado percebe o que isso significa. Não sei o que pode ser mais maquiavélico do que tirar dos setores populares suas maiores inteligências sociais.

OM - Como você vê a educação pública no Brasil?

SC -
 Há uma certa diferença na educação no Brasil e na Colômbia. Creio que aqui há uma maior noção de ensino público. Aqui as universidades não só são públicas como também são boas e gratuitas. Os brasileiros têm ao menos a possibilidade de estudar sem pagar nada.
Na Colômbia, não há nenhuma universidade gratuita. Nem mesmo as públicas. Somos obrigados a pagar matrículas e outras taxas, algo próximo do modelo universitário norte-americano. Trata-se de um nível tão baixo de educação, que não há nada que possamos recuperar. Ainda precisamos tentar construir essa educação pública que não possuímos.

OM – É possível ensinar a uma criança o prazer pela leitura?

SC -
 É muito fácil. É só ter vontade. A maioria dos adultos e dos professores está sempre dizendo que as crianças não gostam de ler e que é necessário entregá-las coisas mais velozes, do mundo do entretenimento. O que ocorre é que eles acabam definindo de antemão quais são os interesses das crianças. Cria-se um determinismo, um preconceito. Isso é renunciar às esperanças no ensino.
As escolas podem parar de falar que tudo está perdido e começar a oferecer uma leitura lúdica e divertida. Creio que quando um professor é um bom leitor, apaixonado pela boa literatura ele é capaz de se colocar como testemunha e não como exemplo. O bom professor tem sensibilidade para ouvir e compartilhar suas experiências com seus alunos.

OM - Quais foram as consequências dos oito anos de governo de Álvaro Uribe para a educação colombiana?

SC -
 Não posso dizer desastroso porque é impossível ser pior do que estava antes. Não houve uma mudança significativa sequer. Na Colômbia, não se pode negar que o acesso às escolas aumentou. Mas, a questão é: entrar na escola para fazer o quê? A educação em meu país ainda é de qualidade muito baixa e segue modelos pragmáticos e utilitaristas. Falam em formar a “autonomia” do aluno, mas isso é, na realidade, formar o egoísmo.
Também não crio muitas expectativas com relação ao governo de Juan Manuel dos Santos. Na realidade, acredito que as mudanças não ocorrem de cima para baixo, mas sim a partir das bases. São os professores em sala de aula, ao lado de organizações sociais, que podem alcançar algumas transformações.

Fonte: Opera mundi

15 de fevereiro de 2012

Conversa fiandeira com Marciano Vasques (Entrevista)


Numa conversa ao pé da roca, Marciano Vasques foi fiando e montado o novelo com o qual tece para encanto de crianças e adultos a sua literatura. Com textos publicados em vários jornais e suplementos literários,  idealizou e publicou o boletim literário Churros na década de 1980, possui ainda uma vasta produção em Literatura Infantil . Nesta entrevista vamos conhecer o “pai” do Rospo, esse homem que na infância teve o privilégio da leitura e ainda possuía uma mãe contadora de história. Hoje, Marciano transita entre as folhas de papel e as páginas do mundo virtual, com ideias firmes, ele contribui para o mundo das artes e encanta muitas crianças.


1-Quem é Marciano Vasques?
R= Um homem que foi um menino feliz, correndo entre eucaliptos e brincando na poeira das ruas. Senti os sintomas da poesia desde cedo. Pude contemplar a sua presença nas tardes de céu ameaçando chuva e nas manhãs de ventanias. Aprendi a embebedar a minha alma nos mistérios das noites enluaradas. Tenho uma força ativada em mim que interpreto como uma generosidade do tempo, pois a cada dia se torna mais polida, mais compreensível e reconfortante.

2-Embora saibamos que todo escritor nasce de um bom leitor – de livros e do mundo – gostaria de saber, a partir de sua experiência, como nasce o escritor.

R= Não uma expressão que seja comum. Cada um certamente tem a sua história, a sua “origem”. No meu caso o nascimento do escritor vem da infância, pelo privilégio da leitura. Na verdade, com seis anos aprendi a ler e devo isso ao Flash Gordon, ao Popeye, e naturalmente, ao “Espírito que anda”. Pelo fato de meu pai ser entregador de jornal para assinantes, desde bem menino aprendi a ler com as tiras. Vi as primeiras tiras tortas dos personagens do Maurício. Aquilo tudo sempre foi para mim um mundo fascinante. Depois, tive um outro privilégio. A minha educação caseira. Cresci numa casa de folclore. E minha mãe era uma contadora de histórias, que me fazia dormir com aqueles contos maravilhosos de meninos que se transformavam em lobisomens. Isso tudo contribuiu para o desenvolvimento sadio da minha imaginação, mas eu queria ser roteirista de histórias em quadrinhos, e me punha hora no quintal com graveto na terra desenhando mil capas de gibis.

3-Ao bisbilhotar seu blog, o internauta vai se deparar com vários títulos publicados por você. Apresente-nos alguns dos seus livros.

R=”A Cidade das Cantigas”— que se transformou numa peça de teatro aprovada pelo Ministério da Cultura, para 50 apresentações em diversas cidades; “Rufina”— que foi lançado no Memorial da América Latina, e hoje é uma personagem amada pelas crianças, “Duas Dezenas de Trava-Línguas”, —com brincadeiras com as palavras que fui inventando em Sala de Aula; “Uma Aventura Na Casa Azul”—que tem como tema a contadora de histórias e seu poder de encantamento; “Duas Dezenas de Meninos Num Poema”—retratando poeticamente o universo dos meninos.

4-Seu primeiro livro Estrelas locais, escrito 1984 é voltado para o público adulto. Após esta publicação, você ficou alguns anos sem publicar e depois voltou encantando as crianças com Literatura Infantil.  Por que esta reviravolta?
 

R=Curioso que quando eu cursava  Filosofia escrevi o meu primeiro livro para o público infantil, o “Assembleia das Palavras”. Escrevi nas viagens de Metrô. Quando fazia mestrado vi esse livro ir ao ar. Dessa forma, isso influenciou o rumo da minha literatura, e o fato de começar a trabalhar com crianças, pois até então, lecionava para adultos. Na verdade, após o lançamento do livro “Estrelas Locais”, fundei a publicação literária CHURROS, um esmero, para a época, sem os recursos que temos hoje a partir da chegada do computador em nossas vidas. CHURROS circulou alguns anos, e divulgou muitos poetas, sem jamais cobrar um centavo que seja, e sempre financiando a publicação com o meu salário, deixando de lado outras prioridades. Por esse período escrevi em jornais, de forma incessante. num diário de Minas, tive mais de trezentos artigos publicados. Ou seja, nunca parei. não publiquei livros. Também, durante um tempo me dediquei à vida acadêmica.

5-É possível dizer que o homem de 1984 foi se tornando o “Peter Pan” de 1997?
 
R= Na verdade, continuei escrevendo para adultos. Artigos em sites de Portugal e do Brasil. Artigos de Educação, Filosofia, Literatura. Mas nos livros, realmente a minha dedicação se voltou para as crianças. Tenho a clara convicção de que a literatura infantil deve se tornar protagonista em qualquer projeto de alfabetização. Sobre se tornar “Peter Pan” não creio ser exatamente isso. Na verdade,  sei que a criança é o nosso permanente estar no mundo. Ela nos resgata o tempo que vivemos, e nos causa a alegria de estar no mesmo tempo que o dela. Isso é fascinante. Um encanto. E está ainda cheio de gente que bate em crianças.

6-Como é escrever para criança?
 
R=Só tem uma palavra: alegria, em seu estado máximo de pureza. É uma fazer lúdico, mas que exige uma postura, uma responsabilidade exagerada. Um rigor ético sem igual. Penso assim.
 
7-Muitos escritores dizem que o gosto pelas narrativas foi nutrido durante a infância pelas histórias que ouviam dos mais velhos, em especial das mães e avós. Poderíamos incluir esta experiência em sua biografia ou outros motivadores?
 
R= Sim, claro, como eu disse, minha mãe era uma contadora de histórias. O mundo rico da imaginação e do encantamento entrou pelos poros da minha casa. Abrimos a janela logo cedo para o mundo entrar.

8-A Literatura Infantil, desde o momento em que surgiu, funciona como metodologia didática. Ainda hoje, você acredita que ela exerce tal função? Por quê?

R= Deverá ser sem dúvida protagonista num processo de alfabetização. Na verdade ela batiza o mundo na criança. A Literatura Infantil alfabetiza a criança para o mundo, e esse mundo emerge na imaginação. A criança através dela entra em contato, por exemplo,  com a melhor ética, que é a do soldadinho de chumbo. Ocorre que  a  Literatura Infantil protagonista e alfabetizadora dos signos linguísticos e também da alma em formação, não deve ser atrelada à Pedagogia, pois sua natureza é ser livre, ensinar sem o peso didático. Ser apenas ela, naturalmente livre.

9-No que se refere à seus livros, qual seria a intenção maior deles? algum tipo de didatismo ou intenção moralizadora?

R=Não. Tenho a clareza de que moral e ética são coisas diferentes. Quando a Literatura Infantil se impõe ou resvala para o lado moral, torna-se pesada, atrelada, preenchida por um didatismo que a empobrece. A ética deve ser o seu manancial. Sua riqueza está na riqueza ética que ela pode levar em suas páginas, de forma lúdica, prazerosa, tranquila, sem didatismo.
 
10- Acho que estou sendo muito curiosa, mas quais são os planos para o futuro? algum livro no forno?

R=Meu livro que será lançado na Bienal do Livro em Agosto é para mim desde o mais aguardado por mim. Fico feliz de pensar na editora que irá publicá-lo e na importância que ele terá em minha trajetória. Não é uma obra de Literatura Infantil. É para o público juvenil. Não vejo a hora. Outro acontecimento que me emociona é que a minha Peça Infantil “Na Ceia com Maria Tricota e Borbotono” terá 40 apresentações em São Paulo, a partir de Abril, e o grupo que está montando o espetáculo é um grupo maravilhoso, encantador.
 
11-Mudando de assunto... Como nasceu e qual o objetivo do blog A casa azul da literatura?

R= Eu quis ter uma casa no mundo virtual que representasse a minha alma, e onde eu poderia me abrigar e até me refugiar. E além disso, quis erguer um espaço de convivência de múltiplas linguagens , onde eu pudesse divulgar a literatura e a obra de outros artistas. Sempre fiz isso, assim é o meu coração. Fundei, além do CASA AZUL DA LITERATURA, o Casa Azul da Arte, onde passei a divulgar a arte e a pintura de artistas de várias regiões do mundo. E fiz isso sempre com o coração limpo e vibrando de alegria por fazê-lo, mas como não entendia a necessidade da autorização dos autores para divulgar as suas próprias criações, e passei por alguns aborrecimentos, isso tudo me fez refletir e praticamente perdi a vontade de continuar com o “Casa Azul da Arte”. Agora vejo no FaceBook uma coisa chamada “Compartilhar”. A vida é curiosa. Ainda com relação ao  CASA AZUL DA LITERATURA fiquei uns três meses indeciso para colocar o primeiro vídeo do YouTube, de música. Hoje compreendo que o blog quis e quer ver as pessoas felizes.

12-Além de literatura, A casa azul da literatura traz música, imagens de personalidades ligadas ao meio cultural. Esta é sua contribuição para o mundo das artes?

R=Sim, é uma extensão do que já fiz em jornais. Já divulguei muitos poetas, escritores, cantores. Sempre gostei disso, tem algo a ver com a forma como entendo “estar no mundo”.

13-Bem, não seria possível conversar com você e não mencionar “alguém” que gosto muito, o Rospo e consequentemente a Sapabela. Como nasceu tais personagens?

R=Rospo e Sapabela nasceram no jornal GAZETA PENHENSE, onde tiveram mais de trezentas histórias publicadas, depois foram para a RIOTOTAL, pois a Irene Serra se apaixonou por eles. São personagens que nasceram para a Literatura Infantil, mas aos poucos foram tomados por uma crescente complexidade, a ponto de hoje não mais serem considerados de Literatura Infantil. Sapabela simboliza a mulher antenada com o seu tempo, e Rospo, um resgate ético. Alguns leitores estranharam e não entenderam aquela “paquera” maliciosa entre os dois e aquela insistência no papinho do Rospo com o “vestidinho” da Sapabela, mas tudo não passa de uma jovialidade. Eles estão ligados no que é essencial, que é a alegria, a ética, e a leveza do ser. 

14-Além de A casa azul da literatura você tem outros blogs, um dos quais é a revista Palavra Fiandeira. Fale um pouco sobre este projeto.

R=PALAVRA FIANDEIRA é uma extensão do CHURROS, e dos artigos que escrevi em jornais divulgando os artistas. O Blog, que agora tem a sua versão em Revista Virtual, tem como objetivo original divulgar escritores, poetas e artistas.

15-Marciano Vasques, considerando as novas mídias, em especial a internet, você considera tudo isso positivo para o escritor e/ou literatura?
 
R=Sim, de um lado, pois a Internet, essa revolução maravilhosa na comunicação entre os povos, aproximou as pessoas e criou uma espécie de mundo paralelo. Para o escritor, representa hoje o que o correio representou no passado. Eu vejo como algo extremamente positivo, mas tem algumas questões: uma delas, é que um texto perdeu a sua história, a sua memória. Não tem mais os rabiscos, os esboços, não tem mais o histórico, a trajetória do texto. Errou, basta deletar. Hoje o texto nasce pronto, acabado.

16-Como você a literatura no século XXI?
 
R=Pulsa tranquilamente no corredor do texto curto, de 140 toques. Os romances continuam firmes e vigorosos. E não há quem resista a um bom livro.

17-É possível dizer que escritores demais no Brasil, especialmente depois da facilidade de se fazer conhecido pela internet? Ou leitores de menos?

R= Isso é ilusório. O tempo só preservará quem realmente for bom, ou seja, quem produzir uma literatura fecunda, consistente, e comprometida com os valores éticos que atravessam os tempos.

18- A palavra é sua...

R= Que a palavra seja sempre fiandeira.

ALGUNS LIVROS PUBLICADOS:
  • Estrelas Locais (Editora Oito de Março, SP, 1984)
  • Assembléia das Palavras (Editora Ave Maria, SP, 1997)
  • Contos, Poemas e Churros (Editora Marco Markovitch, SP, 1997)
  • Duas Dezenas de Meninos num Poema (Editora Paulus, SP, 1998)
  • Uma Dúzia e Meia de Bichinhos (Editora Atual, SP, 2000)
  • A Menina Que Esquecia de Levar a Fala Para a Escola (Noovha América Editora, SP, 2002)
  • Duas Dezenas de Trava-Línguas (Noovha América Editora, SP, 2002)
  • Caroline, Presente de Deus (Ita Editora, SP, 2003)
  • O Palácio dos Eucaliptos (Noovha América Editora, SP, 2003)
  • Encontro com Tatiana Belinky (Noovha América Editora, SP, 2004)
  • Espantalhos (Noovha América Editora, SP, 2004)
  • Griselma, a Bruxinha Assustada (Noovha América Editora, SP, 2004)
  • Rufina (Franco Editora, MG, 2004)
  • Uma Aventura na Casa Azul (Cortez Editora, SP, 2005)
  • A Cidade das Cantigas (Franco Editora, MG, 2006)
  • A Foca Sonhadora (Franco Editora, MG, 2007)
  • Arco-íris no Brejo (Editora Komedi, SP, 2007)
  • As Duas Borboletas (Franco Editora, MG, 2007)
  • Mistérios Para Nicole (Noovha América Editora, SP, 2007)